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domingo, 6 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 08

CONTANDO SUA HISTÓRIA

Depois de arrumar os quartos, Dayelle ajudou Rita a arrumar a cozinha, lavou as louças e ajudou Celeste a lavar roupas.
- É menina, estou gostando de ver – comentou Rita – realmente você não tem medo de trabalho. Vejo que fiz bem em te aceitar aqui.
- Eu sempre trabalhei duro, dona... Quer dizer, Rita. Na roça a gente aprende cedo.
- E você? Não estuda?
- Estudei até a sétima. Parei quando ia começar a oitava.
- E porque parou?
- É que... Bom... É que eu tive um problema.
- Problema? Que tipo de problema uma menina da sua idade pode ter para parar de estudar? Ficou doente?
- Não exatamente.
- Então foi exatamente o quê?
- Não sei se devo falar.
- Ah, mas deve sim. Vamos, quero saber.
- Tenho vergonha. Tenho medo de você pensar que sou uma leviana.
- Você tem que idade, Dayelle?
- Quinze anos.
- Então me conta o quê que uma menina de quinze anos fez de tão grave?
- Bem... Eu e meu namorado... Você sabe.
- Ainda não sei de nada.
- Ai, Rita. É difícil falar essas coisas.
- Então deixa eu te ajudar. Você e seu namorado transaram.
- Não gosto desta expressão. Prefiro dizer que fizemos amor.
- E isto é motivo para parar de estudar?
- Isto não, mas a conseqüência disto. Eu engravidei.
- Você? Com quinze anos?
- Não com quatorze.
- Com quatorze? Que loucura, Dayelle! Mas... E seu namorado? Seu filho? Ficou com seus pais?
- Esta é uma longa história, Rita. Longa, triste, desesperadora. Você está diante de uma mãe loucamente desesperada.
- Senta, Dayelle – ordenou Rita - Me conta esta história.

Dayelle sentou-se e contou para Rita tudo o que se passou com sua vida. Seu amor pelo primo, sua gravidez, a rejeição de seus tios e pais. Inclusive a forma em que seu filho lhe foi tirado.

Rita e as demais empregadas ouviam atentamente a triste história de Dayelle. Uma menina tão jovem, quase uma criança. Como suportara tamanha tragédia? Concluíram enfim, que a vida lhe fora madrasta. Para uma pessoa adulta teria sido difícil passar por todo esse sofrimento. Imagine para uma criança.

E Dayelle lhes disse ainda que fugira de casa para trabalhar na cidade grande, juntar dinheiro o suficiente para ir atrás de seu filho. Não sabia por onde começar, mas uma coisa ela tinha certeza: Ia encontrá-lo. Nem que fosse a última coisa que faria em sua vida. Mas um dia ela abraçaria seu filho. Cada momento de sua vida seria dedicado a ele.

Rita e as outras colegas ficaram emocionadas com a história da menina. Mas ao mesmo tempo chocadas com a atitude de seus pais.
- Olha, Dayelle – falou Rita em fim –Vou tentar fazer algo para te ajudar. Você é uma menina trabalhadeira. Vou conversar com os patrões e tentar conseguir algo para você. Não prometo nada, mas vou tentar.
- Fico muito agradecida, Rita.
- Os patrões são pessoas muito boas. São evangélicos e conhecem muitas pessoas. Mesmo que não seja aqui. Talvez conheçam alguém que precisem de empregada.

Dayelle sentiu as lágrimas rolarem de seus olhos, Não sabia se pela emoção de ter revivido sua trágica história ou pela bondade de Rita. Pela chance de conseguir um emprego.

- Não chore menina. – Consolou Rita – Você vai realizar seu sonho. Você é bastante determinada. E isto é uma qualidade.

As outras a consolaram também. Dayelle parou de chorar e voltou a suas atividades.

Por voltas das quatro horas da tarde, Rita colocou diante de Dayelle um delicioso lanche. Tinha café, leite, suco, pão, manteiga, queijo e presunto, bolo e biscoitos. Dayelle nunca havia comido tão bem e tanto. Toda hora Rita lhe oferecia algo: uma fruta, bombons que ela mesma fazia, doces... No lanche a menina nem estava com fome. Aproveitou pouco dos alimentos.

Após o lanche resolveu conhecer o lado externo da mansão, pois não havia mais nada em que ela pudesse ajudar. Mirian já se arrumava para ir embora e Celeste, a lavadeira, já havia saído. Só Rita e Pedro permaneciam na casa. Douglas trabalhava no turno da noite e pela manhã ia embora.
Rita começava a se preparar para fazer o jantar.

Dayelle continuou sua exploração por aquele mundo tão fantástico. Passou pela piscina e viu Pedro sentado. Próximo à piscina havia vários bancos de ferros pintados na cor branca, um jardim de folhagem que circulava o murro. Mais adiante dois enormes pés de manga e um galpão grande, onde havia também uma churrasqueira.
- E aí, Dayelle? Muito serviço? – perguntou Pedro assim que viu a menina se aproximando.
- Nossa! E como!
- É! Aqui não é moleza não. Eu vejo o que as meninas passam para deixar tudo em ordem
- Como a Mirian dar conta de fazer tudo sozinha? Em duas nós demoramos à beça.
- E olha que as crianças nem estão em casa. Mas uma vez por semana vem uma diarista. Nem sei por que ela não veio esta semana.
- Ainda bem que ela não veio. Senão eu não teria tido esta oportunidade.
- Acho que teria sim. A Rita não ia agüentar olhar para esta carinha triste do outro lado do portão sem fazer nada.
- Minha tristeza estava tão em evidência, assim?
- Estava sim, mas o que te salvou foi o fato de ter procurado emprego. Menina da sua idade aqui não trabalha. Só estuda.
- Totalmente diferente da minha realidade. A maioria das meninas da minha idade só trabalha.
- Você não precisa parar de estudar para trabalhar. Pode freqüentar as aulas noturnas.
- Sério?
- Claro que sim. Eu mesmo terminei meus estudos depois de adulto.
- Tomara que eu consiga um emprego que dê para eu estudar! É o que eu mais gosto de fazer.
- Não se preocupe. Aposto que o doutor Rafael vai dar um jeito nisso.

Dayelle continuou seu reconhecimento, agora acompanhada por Pedro que ia lhe falando sobre tudo. Falou-lhe sobre a família Zandelly, o que cada um fazia e que eram todos evangélicos. Eles pertenciam a Igreja Evangélica Oásis de Deus. Era uma denominação que se preocupava muito com o convívio familiar. Os filhos aprendiam desde cedo a cultivar o amor entre irmãos, a viverem em harmonia. A obediência aos pais era primordial e conseqüentemente, aos mais velhos. Falavam tanto no amor ao próximo que a igreja era mais conhecida como Comunidade do Amor.

Pedro, sempre que podia, freqüentava as reuniões. Explicou que o galpão era freqüentado pelos irmãos da igreja que vinham fazer churrasco a convite da família. Érica e o Júnior se reuniam ali sempre com o grupo de louvor. Cantavam, tocavam e depois iam se refrescar na piscina com os demais jovens.

Anoiteceu. Dayelle foi para a ala dos empregados, tomou um banho. Ganhara algumas roupas usadas de Rita e estava doida para experimentá-las. Vestiu uma bermuda branca de Brim que lhe caiu muito bem e uma blusa azul clara de uma malha colante que revelavam ainda mais as silhuetas perfeitas de seu corpo de adolesceste.

Os doutores também não chegaram cedo naquela noite e nem na seguinte. Rita não pôde conversar com os patrões.
Dayelle continuou lá por três dias sem que eles soubessem.

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