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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 11

UMA CONVERSA MUITO DIFÍCIL
Adriana foi correndo ao tio e lhe falou conforme sua tia havia ordenado. Voltaram juntos e no caminho ela lhe falou do que se tratava a urgência. Dayelle estava em casa e que viera com um casal que pareciam ser muito rico. Chegaram num carro muito chique.
Assim que Jerônimo soube do que se tratava, sentiu alívio em seu coração. Apesar de não demonstrar e até fazer de conta que não estava se incomodando com o desaparecimento da filha, ficou mais tranquilo em saber que ela estava bem. Tratou de acelerar os passos para chegar mais rápido, deixando Adriana para trás que tentava acompanhar seus passos inutilmente. Usava uma roupa bastante surrada e maltrapilha. Estava todo suado quando entrou em casa devido ao trabalho fatigante e a rápida caminhada que acabara de fazer. Retirou da cabeça o boné desbotado pelo sol e pelo constante uso e cumprimentou os doutores. Apenas olhou para Dayelle.

Dayelle toda acanhada não sabia se devia tomar-lhe a bênção. Por fim decidiu que era o certo a fazer. Se ele a abençoasse bem; se não, tinha cumprido sua parte.
- A benção, pai.
Jerônimo puxou uma cadeira e sentou-se também. Estava muito magoado com a filha e pensou em não responder. Mas que espécie de pai era ele em recusar abençoar a própria filha? E na presença de estranhos? Guardou a punição para mais tarde e respondeu:
- Deus te dê a bênção! – olhou para a mulher que estava apreensiva e ao mesmo tempo preocupada – A caminhada me deu sede, Judite. Me dá um copo d’água.
Judite se apressou em servir o marido, enchendo uma caneca grande com água bem fresquinha e estendeu para Jerônimo.
- Os doutores são servidos?
- Não! Obrigado!- responderam ambos

Com a sede saciada, Jerônimo introduziu o assunto.

- Então Dayelle, - falou à filha – Não se conteve em nos trazer problemas? Resolveu envolver os doutores também nas suas loucuras?
- Jerônimo, - interrompeu Rafael – se me permite, antes que Dayelle te responda eu gostaria de lhe falar.

Dayelle deu graças a Deus. E Rafael continuou.

- Você tem toda razão em está bravo com sua filha. Eu também sou pai e com certeza minha atitude não seria diferente da sua.
- Vê se tem cabimento, doutor, esta menina fugir de casa e deixar todo mundo preocupado?
- Tem toda razão, Jerônimo, e é por isso que eu a trouxe de volta. Não tinha chance nenhuma de ficar com ela em minha casa sabendo que ela havia fugido.
- Ela saiu daqui falando que ia trabalhar na Vila, doutor. Saiu daqui na terça feira para voltar na quarta. Como ela não voltou, na quinta, pela manhã, o irmão foi procurar por ela onde ela disse que estaria trabalhando e a pobre da mulher tomou até um susto, pois não havia chamado ela para fazer nenhum serviço.
- É Dayelle, você não agiu corretamente. – falou Rafael

- Qual é a desse cara? Dayelle se perguntava. Ao invés de me ajudar, ele está complicando mais a minha situação?

Jerônimo continuou.
- O irmão passou o dia procurando por ela. Perdeu o dia de serviço por causa dessa desmiolada.

A coisa estava se complicando para a menina. Jerônimo estava ficando cada vez mais alterado e Dayelle sabia que isso não era um bom sinal.
- Minha vontade doutor é de pegar esta menina e dar uma boa surra nela de fazer ela se banhar na água de sal.
Késsia nem Judite falavam uma só palavra. Nem mesmo Dayelle ousava falar alguma coisa. Deixou o assunto com os homens e se tornaram meras expectadoras. E torciam para que tudo terminasse bem. Principalmente Dayelle.
Rafael sentiu que deveria amenizar a conversa, pois percebeu com que raiva Jerônimo proferia cada palavra.
- Sabe Jerônimo, ainda bem que ela bateu em minha porta. Os empregados a receberam. Ela ajudou no serviço da casa e eu não a trouxe há mais tempo porque só fiquei sabendo ontem. Tive uma conversa séria com ela e ela entendeu que este não era o caminho certo.
- Doutor, eu não o conheço. Mas sei que é um homem correto. Outro não ia dar a mínima. E talvez até se aproveitasse da ingenuidade dela.
- Obrigado!
- O senhor agiu como amigo. Colocou ela no carro trouxe de volta pra casa. Eu sei que o senhor não tinha essa obrigação.

Rafael sentiu que estava dominando a situação e arrematou.

- Era minha obrigação sim, Jerônimo. Sou um servo do Senhor e isto me torna servo de meu semelhante. E você é meu semelhante. Como eu podia deixar a filha do meu semelhante nas ruas tão perigosas como são as de Tupamirim? Não viveria em paz com a minha consciência e com o meu Deus se alguma coisa ruim acontecesse com ela, uma vez que procurou ajuda em minha casa.
- É um homem de caráter, doutor Rafael. E digo isso não porque o senhor é crente; porque eu sei que tem muito crente safado.
- Mais uma vez eu agradeço, mas agora vamos falar de Dayelle. Eu pude perceber que o senhor a educou muito bem. É educada, caprichosa e muito trabalhadeira.
- É! Ela trabalha desde pequena. Até pegar café na roça comigo ela já pegou. Vive fazendo faxina lá na Vila. Todos por aqui gostam muito dela. Só que de uns tempo pra cá ela virou a cabeça de um jeito... Se envolveu com o primo, engravidou... Colocou a mãe dela e eu numa situação muito difícil. O pai do meu sobrinho mal fala comigo e é muito difícil, porque é meu patrão e estas terras é dele.
- Dayelle cometeu um erro, mas vamos levar em consideração que ela sempre foi uma boa filha, não é Jerônimo?
- Essa menina é a que menos me deu trabalho; em casa, na escola. Ela gosta muito de ler. Se não tá trabalhando, tá lendo.

Dayelle ficou mais animada com o rumo da conversa. Késsia sentiu que estava na hora de participar também.

- Ela tem muita vontade de continuar os estudos. O que você acha disso, Jerônimo?
- Eu penso que ela tá certa, mas aqui na vila não dá muito recurso pra isso não, doutora.
- E se ela tiver oportunidade? – Quis saber Késsia.
- Olha, doutora, eu mal sei assinar meu nome. Sou ignorante de pai e mãe, mas se meus filhos puder crescer na vida não sou eu que vou impedir.
- É pra isto que estamos aqui. – continuou Rafael – Queremos dar esta oportunidade a sua filha.
- Mas como?
- Viemos pedir a permissão de vocês para que Dayelle volte conosco para Tupamirim, onde ela ficará trabalhando em nossa casa lhe pagaremos um salário e ela terá a chance de realizar seu sonho: de continuar seus estudos.

Todos ouviam boquiabertos. E Dayelle não se cabia de felicidade e ansiedade em saber a resposta do pai.

Neste momento chega Wagner da vila. Damaris percebeu que estava chegando, correu para lhe contar a novidade. De longe Wagner viu o carro e ficou tudo esclarecido quando Damaris foi ao seu encontro. Entrou em casa cumprimentando-os sem interrompê-los.
- Não sei, doutor! – Respondeu Jerônimo inseguro.
- Sempre que ela quiser poderá visitá-los – Afirmou Rafael.
- O que acha, Judite? – perguntou Jerônimo para a mulher.

Jerônimo sempre tomava as principais decisões, mas aquele assunto requereria outra opinião. E Judite foi categórica e decidida. Mas que qualquer um ali, ela desejava compensar a filha por sua perda e respondeu.

- Os pais têm o dever de educar os filhos, cuidar deles, mas não tem o direito de impedir que batam asas e voem. Minha filha sempre estudou com dificuldade. Todos os irmãos só fizeram até a quarta série, porque tinham muita dificuldade. Não tinham roupa direito para irem à escola, caderno, livros... A Daye, com toda dificuldade, fez até a sétima e quer continuar. Se vocês querem dar a ela esta oportunidade, não sou eu que vou impedir.

Diante de tamanha veemência, Jerônimo não teve como discordar.
- Se for este o desejo dela, eu não vejo mal algum. Vocês já provaram que são gentes decentes.

Dayelle quase gritou de felicidade. Nem dava pra acreditar em seus ouvidos. Era bom demais. Neste momento todos falavam ao mesmo tempo. Encorajavam a Dayelle, como se ela precisasse de coragem. Outros davam conselho para que ela fosse obediente aos doutores. Dayelle abraçou com o irmãozinho Wender. Se tivesse intimidade, ela abraçaria seu pai. Até dona Almerata fez o comentário dela.

Dayelle estava se sentindo nas nuvens. Ia voltar. Ia trabalhar muito e juntar dinheiro para procurar seu filho e, de brinde, ia poder voltar aos estudos.

Em meio à alegria, todos foram servidos de mais café e Dayelle foi arrumar suas coisas para levar. Na fuga deixou todos os seus pertences para trás. O que não queria, deixou para seus irmãos. Para Damaris, ela deu sua boneca de cabelo. A irmã sempre pedia para brincar com ela. E para onde ia Dayelle não ia ter tempo de brincar de bonecas. Deu ao Wender várias revistas. Ele gostava de ver os desenhos. Principalmente os de carro. E ao Wagner resolveu recompensá-lo por todo trabalho que lhe deu e deixou com ele sua toca-discos que ganhara no bingo da igreja.

Os doutores receberam o convite para esperarem o almoço, mas eles explicaram que não podiam ficar, pois aguardavam os filhos que chegariam de viagem. Assim que Dayelle terminou de apanhar suas coisas começaram a se despedir. Dayelle estava tão feliz que resolveu quebrar o protocolo e abraçou e beijou a todos; inclusive seu pai que não deixou de fazer suas recomendações.
O último a ser abraçado foi o Wagner.
- Vê se volta de lá doutora, viu? – lhe falou Wagner.
- Com certeza. Você sabe que eu sempre aproveito as oportunidades.

Dayelle deixou com sua mãe os cinqüenta Cruzeiros que ganhara de Rafael. Não ia lhe fazer falta. Pra onde ela ia, se comia do bom e do melhor. Era mais necessário para sua mãe.
Após a despedida, entraram no carro e Rafael o colocou em movimento. Pelo vidro Dayelle via todos lhe acenando enquanto Damaris corria atrás do carro, seguida por Wender que não conseguia acompanhá-la. Correu até o carro se perder de vista e desaparecer além da curva.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 10

DE VOLTA AO LAR

Durante a viajem Dayelle pouco falou. Apenas respondia quando Rafael ou Késsia perguntavam alguma coisa. Em seu coração ela temia a reação de seus pais. Sempre fora uma boa filha, porém se seus pais a impedissem de voltar para a cidade grande, ela estava disposta a fugir de novo.

Após duas horas de viagem Rafael parou em uma lanchonete de beira de estrada a pedido de Késsia.
- Vamos aproveitar esta parada, Dayelle – falou Rafael – e come alguma coisa. Deve está com fome.

Dayelle entrou com eles na lanchonete. Foi ao banheiro com Késsia enquanto Rafael fazia os pedidos.

Dayelle estava com sua alma temerosa, angustiada. Talvez nem conseguisse comer. Entrou no banheiro e aproveitou para chorar. Sentia uma dor tão grande de pensar que talvez nunca fosse ao menos saber como era o rosto de seu filho. As lágrimas brotavam facilmente de seus lindos olhos verdes e rolavam por sua face serena. Poderia haver dor maior que esta? Perguntava-se em seu coração.
- Dayelle, você está aí? – perguntou Késsia percebendo sua demora.
- Já estou saindo – respondeu lá de dentro, fazendo um esforço para a voz parecer natural.

Saiu enfim, de cabeça baixa para a doutora não perceber que chorava e foi direto para a pia se lavar. Késsia percebeu que seu rosto estava triste, olhos vermelhos, e tocou suavemente seus cabelos.
- Oh! Minha querida!

Colocou as duas mãos sobre os ombros de Dayelle num gesto todo maternal e carinhosamente como uma verdadeira mãe que tenta amenizar o sofrimento de uma filha.

Com aquele gesto tão carinhoso Dayelle desabotoou em lágrimas e soluços novamente, agora com mais intensidade, sem receio de revelar seus sentimentos.
Késsia a abraçou movida pela compaixão.
- Vai passar, meu anjo! Eu sei que vai – falava Késsia com ternura.
- Dói demais doutora! Eu queria estar morta!
- Não! Não diga isso!
- Digo sim, doutora. Porque eu não morri quando estava no hospital? Eu não estaria passando por tudo isso.

Dayelle chorava abraçada com a doutora, enquanto esta tentava lhe acalmar.
- Calma, meu anjo! Deus não quis que você morresse. Eu tenho certeza de que ele vai te ajudar. Não é à toa que te salvou a vida e fez você descobrir a verdade sobre seu filho. Nada acontece por um acaso, Dayelle. Deus tem seus objetivos.
- Objetivos de me fazer sofrer, isto sim. – retrucou a menina – Deus é mal.
- Não! Deus é justo!
- Levar meu filho de mim é justiça, doutora? – falou Dayelle agora olhando para Késsia.
- Dayelle, nem uma folha cai de uma árvore se não for da vontade de Deus.
- É vontade de Deus me fazer sofrer?
- Claro que não. O pecado nos leva ao sofrimento.
- É pecado amar um filho? Desejá-lo mais do que a própria vida?
- Olha, quando voltarmos, vamos continuar esta conversa. Não dentro de um banheiro, mas em casa sentadas num sofá confortável.
- Se é que vou voltar, doutora.
- Se faz sentir-se melhor, eu prometo que vou fazer de tudo para convencer seus pais a deixarem você voltar com a gente. Deus te colocou em nosso caminho e eu sei que ele tem algum objetivo. Entre tantas casas, você foi bater justamente na minha. Você acha que isto é coincidência?
- Acho que não. – falou Dayelle, balançando a cabeça negativamente. O choro já havia passado.
- Rafael e eu vamos te ajudar. Eu sei que a primeira impressão que ele te deixou não foi nada boa, mas você vai descobrir que ele é um cara legal.
- Está muito difícil de acreditar.
- Sua opinião vai mudar. Confia em mim. E agora, chega de lágrimas, de tristezas e de conversa e vamos lanchar. Doutor Rafael deve está preocupado conosco.
Saíram do banheiro abraçadas e de longe viram Rafael sentado esperando pacientemente por ambas. Késsia não se conteve ao ver o marido tão tranqüilamente e disse a Dayelle:
- Veja, Dayelle, pode haver homem mais maravilhoso do que este?
- Nem me atrevo a adivinhar seus pensamentos. Tremo só de pensar.

Riram do comentário enquanto se aproximavam da mesa.
- Demoraram – disse Rafael.
- Mulheres no banheiro. Sabe como é. - Disse Késsia enquanto beijava o marido.
- É! Eu sei como é. Por isso tomei a liberdade de pedi um suco de acerola para as duas, uns salgadinhos...
- Está ótimo, querido! Obrigada.
- Tudo bem pra você, Dayelle? – Perguntou Rafael – Se não gostar pode pedir outra coisa.
- Está bom sim, obrigada.
- De nada!

Assim que todos terminaram o lanche, Rafael pagou a conta e voltaram para a estrada dando continuidade à viagem.
Dayelle depois de bem alimentada e de desabafar um pouco as mágoas com Késsia, vencida pelo cansaço de ter levantado muito cedo acabou adormecendo.

Késsia aproveitou para falar com o marido sobre a conversa que teve com a menina no banheiro. Falou de seu medo de não poder voltar e o quanto ela chorou ao lembrar-se do filho e de sua incerteza de um dia vê-lo.
- Acha que devemos tocar no assunto do filho dela com seus pais? – perguntou Késsia.
- De modo algum. – falou Rafael –. E mais: vamos advertir Dayelle também para que não faça.
- E como vamos descobrir com quem está o menino?
- Tudo ao seu tempo. Hoje vamos apenas lhes falar sobre Dayelle e como apareceu lá em casa. E que queremos que ela trabalhe conosco e que ela terá a oportunidade de estudar. Vamos ajudá-la até se formar.
- E se o pai tentar bater nela?
- Acho que não fará isto. Geralmente pessoas do interior são mais educadas do que as da cidade. São ignorantes em matéria de conhecimento não em suas atitudes.

E assim continuaram a viagem. Quando entraram em Vila de Rio Claro Rafael pediu que Késsia acordasse Dayelle para que lhe mostrasse o caminho de sua casa. Dayelle sonolenta viu quando passavam pela rodoviária. Viu a loja da Margô, o armazém de seu Joaquim. Muitas pessoas conhecidas. Tiane estava na pracinha conversando com João Alicio. Namoravam escondidos dos pais de Tiane.

Não permitiam o namoro porque João Alicio era músico e tocava em uma banda. E músico era profissão de vagabundo. Diziam eles.

Deixaram a Vila e entraram em uma estrada de chão que Dayelle conhecia muito bem. Sempre que via um conhecido, Dayelle abaixava a cabeça para não ser reconhecida. Viu seu irmão Wagner que passava de bicicleta indo para a Vila. Num instante ela avistou o Rancho Floresta. A pé da Vila, levava cerca de quarenta minutos para chegar. De carro, teve a impressão de não levar nem cinco. De longe Dayelle avistou sua mãe estendendo roupas no varal. Sua irmã Damaris estava brincando com seu irmãozinho Wender.
Todos pararam o que estavam fazendo quando viram o carro se aproximando com olhar surpreso.
As crianças correram em direção ao carro para ver de quem se tratavam.
Dayelle dentro do carro sentiu o coração bater mais forte e suas mãos estavam geladas. Mesmo com o ar condicionado ligado, ela esta suando. Sentiu uma tontura e quis se abaixar para não ser reconhecida, mas era tarde demais.
- É a Daye, mãe – gritou Damaris bem próxima do carro, seguida por Wender.

Rafael parou e saíram do carro. Rafael e Késsia saíram primeiro. Logo em seguida, Dayelle, toda envergonhada, saiu também.
Todos saíram de dentro de casa e rodearam os três como se fosse um grupo apache.

Sua mãe, ao vê-la, não sabia o que fazer ou dizer. Não pode conter a alegria de saber que sua filha estava bem. Chegou até mesmo chorar. Não abraçou a filha. Não era costume da família manifestar sua emoções tão afetivamente, mas todos puderam perceber a alegria em seus olhos por rever a filha.
- A bênção, mãe. A benção tia.
- Deus te abençoe. – responderam.
- Bom dia – disse Rafael interrompendo a emoção, estendendo a mão para a mãe de Dayelle – Sou doutor Rafael e esta é minha mulher, doutora Késsia.
- Bom dia doutor. Sou Judite, a mãe desta sem juízo. – e virando para Késsia – Como vai doutora?
- Bem, obrigada! É um prazer!

Cumprimentaram se todos, e, Rafael continuou:
- Viemos conversar com você e seu marido. Ele está?
- Ele está na lida, doutor. Vou mandar chamar. Vai Damaris... – olhou em volta, mas não encontrou a filha – Cadê essa menina?
- Ela foi pá lá, mamãe. – mostrou Wender com seu dedinho minúsculo de dois aninhos.
- Pode deixar tia – falou Adriana – Eu vou chamar o tio.
- Então vá bem depressa. Fala com ele pra deixar tudo e vim correndo.

Adriana é uma prima de Dayelle que vive com eles desde de bem pequena. Sua mãe, irmã de Judite, morreu de câncer.

- Mas venha, doutor, vamos entrar – convidou Judite – Num repara não, doutora. E casa de pobre.

Entraram todos. Rafael ficou comovido com tamanha pobreza e Késsia parecia sentir o mesmo. Judite lhes ofereceu cadeiras para que se sentassem enquanto aguardavam a chegada de Jerônimo.

- Você quase nos mata de preocupação, Daye – falou Judite à filha – O que deu em sua cabeça?
- Ah! Mãe! Sentir vontade mudar de vida. Aqui as coisas são muito difíceis. Resolvi tentar a vida na cidade grande.

Desejou falar a verdade para sua mãe. Que fugira para procurar seu filho, mas lembrou-se que foi advertida para não tocar neste assunto.
- Mas precisava fugir, minha filha? Te procuramos por toda parte. Até que o Wagner lembrou de perguntar na rodoviária se você tinha aparecido por lá. O rapaz da bilheteria é amigo dele e falou que vendeu a passagem para você.
- O Wagner o conhece? Ele me conhece?
- Ele lembrou de você. Então o Wagner foi à delegacia e deu parte do seu sumisso. Os policiais estão te procurando lá em Tupamirim. Ele acabou de sair. Foi a delegacia para ver se tem noticias suas.
- Eu o vi quando vínhamos. Passou por nós de bicicleta.
- É, Daye, você deixou todo mundo preocupado. Seu Joaquim pegou o carro e rodou a vila inteira a sua procura.
- Perdoa-me, mãe, eu não sabia que ia causar tanta preocupação. E o pai? Está muito zangado comigo?
- Você sabe como é o seu pai; ele sente, mas não dá o braço a torcer.
- Mãe você precisa me ajudar convencer o pai a me deixar voltar para Tupamirim. Os doutores estão dispostos a me ajudar.
- É pra isso que estamos aqui, Judite – falou Rafael participando da conversa – Viemos conversar com você e seu marido.
- Mas a Dayelle já conhecia vocês? De onde? – Quis saber Judite.
- Não! Não nos conhecíamos, mas eu prefiro esperar o Jerônimo chegar. Então eu explicarei tudo.
- O senhor está certo. Vou aproveitar e passar um café fresquinho.

Judite foi fazer o café enquanto os doutores continuavam conversando com Dayelle, sua tia e até as crianças estavam curiosas para saber algo sobre a cidade grande. Judite também participava da conversa, pois todos estavam na cozinha. Conversavam animadamente. Dayelle já se sentia até mais calma em seu ambiente familiar.
Damaris que desaparecera com a chegada da irmã, reapareceu, seguida por dona Almerata que resolveu testificar com seus próprios olhos o aparecimento da menina. Chegou esbravejando, chamando a atenção dela e puxando suas orelhas, mas não disfarçava a alegria de vela bem.

E assim todos conversavam animadamente, aguardando a chegada de Jerônimo.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 09

CONHECENDO OS PATRÕES

Dayelle já não agüentava de tanta curiosidade de saber quem era os Zandelly. Os empregados falavam tão bem deles que ela já os admirava mesmo antes de conhecê-los. Na sexta feira, quando caminhava próximo à piscina por volta das cinco horas da tarde, Mirian foi lhe falar que os patrões haviam chegado e que Rita e Pedro estavam conversando com eles a seu respeito.

Dayelle sentiu o coração bater mais rápido. Estava ansiosa por conhecê-los e saber se lhes dariam uma oportunidade de emprego. Mas foi advertida por Mirian que só deveria ir quando fosse chamada. Teria que guardar sua ansiedade por mais alguns instantes.
Pedro e Rita conversaram com os doutores, disseram como Dayelle apareceu pela primeira vez, de onde veio, que Pedro a buscou tarde da noite quando estava dormindo na porta do Monteiro & Cia e como trabalhou com eles durante todos aqueles dias. Vendo que os corações dos patrões estavam tomados pela sensibilidade Rita deu a cartada final contando para eles toda história de Dayelle, de como seu filho lhe fora tirado e a esperança que ela tinha de encontrá-lo. Doutora Késsia se comoveu tanto que teve de segurar para não chorar. Doutor Rafael mandou chamar a menina, dizendo que eles fizeram muito bem em recebê-la e que, com certeza, iria tentar fazer algo por ela.
Pedro foi chamá-la e em seguida a menina foi introduzida na sala. Dayelle se admirou da juventude de ambos. Sempre que pensava neles, os imaginava velhos como seus pais. Se bem que seus pais não eram tão velhos, mas tinham os corpos castigados devido ao trabalho na roça. Estava diante de um homem alto, claro, cabelo castanho claro e aparentando quarenta anos e uma linda mulher que aparentava a mesma idade, mas morena, de cabelos escuros, cortado curto.

Rafael a fitou por alguns instantes em silêncio. Dayelle abaixou a cabeça. Não sabia o que fazer ou dizer.
- Não! – falou finalmente Rafael – quero ver seus olhos.
Dayelle levantou a cabeça, olhou rapidamente para ele, desviando o olhar em seguida. Estava muito embaraçada.
- Gosto de olhar nos olhos quando converso com alguém, Dayelle. Por favor, olhe para mim.
- Sim senhor. Desculpa.
- Não é necessário pedir desculpas. Não estou zangado.
- Obrigada, senhor.

Ali, naquele primeiro contato, Rafael percebeu que estava diante de uma pessoa extremamente educada. Simples, mas educada e continuou.
- Já estou sabendo de sua história. Pedro e Rita me colocaram a par do assunto. Mas eu quero saber de você. O que quer de nós?
- Quero um emprego, doutor. – falou decidida – Preciso arrumar dinheiro para ir atrás de meu filho que me tiraram.
- Certo! Estou disposto a te ajudar, mas você vai me ajudar primeiro.
- Como?
- Você vai me levar até sua cidade, na casa de seus pais.

Dayelle gelou. Havia fugido de casa. Como iria voltar sem sofrer uma punição? Conhecia seu pai muito bem e sabia que sua fuga não ia passar em branco.
- Doutor, eu não posso voltar lá.
- Então eu não posso te ajudar.
- O Senhor não entende.
- Entendo sim. Entendo que você é menor de idade, fugiu de casa e se eu te receber em minha casa de qualquer maneira, as coisas vão se complicar para mim.
- Não se preocupe, Dayelle – falou Késsia, encorajando a menina - Do que você tem medo?
- A senhora não conhece meu pai. Temo só em pensar.
- Mas não podemos ficar com você sem o consentimento deles. Tem que entender o nosso lado. Se seus pais forem à polícia, a coisa se complica para nós.
- E se meu pai me segurar lá? Não me deixar voltar?
- É um risco que terá de correr. – falou Rafael.
- Se o senhor fosse meu pai, me deixaria voltar.
- De jeito nenhum! E te daria surras de acordo com os dias que passou fora de casa. Se fossem cinco, levaria cinco surras. Se fossem vinte, vinte surras. Até a minha angústia passar. E com certeza teria mais castigos.

Dayelle engoliu seco diante da resposta áspera de Rafael. Cadê aquele homem bondoso que diziam que era? Diante da resposta, chegou até a achá-lo parecido com seu pai.
- Dayelle, precisamos conversar com seus pais. - falou Késsia – A coisa não pode ser feita assim de qualquer maneira.
- E se eu der o endereço? É fácil de encontrar. Todo mundo na vila conhece meu pai. Deixe-me ficar, por favor!
- Sem chance Dayelle – falou Rafael.

Ficaram em silêncio por alguns instantes. Dayelle se viu contra a parede. O silêncio foi interrompido por Rafael.
- Vamos fazer o seguinte: você pensa até depois do jantar e então voltamos a conversar.
- E se eu não concordar? – quis saber Dayelle.
- É simples! Esta situação será resolvida até amanhã. Ou te levo a sua casa e converso com seus pais, ou te levo para o juizado de menores.
- Quer dizer, doutor, que, se correr o bicho pega, se parar o bicho come?
- Você entende rápido – falou ironicamente Rafael – A decisão é sua, gatinha.
Rafael se retirou da sala.
- É preciso ter coragem para fazer a coisa certa – Aconselhou Késsia e se retirou também, acompanhando o marido.

Enfurecida Dayelle passou pela cozinha, onde estava Rita preparando o jantar.
- Então, Dayelle, tudo certo? – perguntou Rita.
- Não tem nada certo.
Respondeu sem parar e foi para o quarto das empregadas. Odiou Rafael. Chegou ao quarto, juntou todos os seus pertences e estava decidida a voltar para as ruas. Ia tentar conseguir emprego com outras pessoas.
- Bom, bom, generoso. – falou sozinha – não sei onde viram generosidades neste homem. Ele é muito arrogante, isto sim. Vou sair daqui é agora.

Colocou a mochila nas costas e foi em direção a garagem. Pensou em dar satisfação a Rita. Ela, sim, tinha sido bondosa com ela. Mas mudou de idéia. Não queria correr o risco de encontrar os doutores. Pedro e Diogo estavam na garagem. Melhor assim. Agradeceria ao Pedro e pediria a ele para agradecer Rita. Pedro falou antes dela.
- O que aconteceu, Dayelle? Aonde você vai?
- Vou embora, Pedro. Desculpa o trabalho que dei a vocês.
- Calma, Daye. O que deu errado? Doutor Rafael te mandou embora?
- Não, claro que não. Ele é muito bondoso para fazer isto – falou com ironia – Me mandoueu escolher entre voltar para casa ou ir para o juizado de menores.
- Eu não posso deixar você ir sem falar com o doutor. Vá chamar o doutor, Diogo. – Diogo obedeceu e saiu.
- Eu não quero falar com ninguém – Dayelle estava desesperada - Pedro, por favor, abra o portão.
- Calma Dayelle - Pedia Pedro.
- Eu estou calma. Só quero sair.
- Deixa só o doutor chegar aqui.
- Eu quero sair. Em nome de Deus, Pedro, deixa-me ir. – As lágrimas já corriam em sua face.
- Eu não posso deixar você ir Daye. Não faz assim.

Késsia chegou para ver o que estava acontecendo e viu Dayelle chorando com a mochila nas mãos.
- O que aconteceu Dayelle?
- Quer ir embora por toda lei, doutora, - falou Pedro.
- Você vai para onde Dayelle? – perguntou Késsia.
- Eu não sei. – respondeu chorando – Só não vou voltar para casa.

Rafael chegou em meio à discussão e falou:
- Não quer receber primeiro, Dayelle? Afinal de contas você trabalhou.

Dayelle não respondeu. Só chorou. Rafael continuou.
- Bom, deixa-me ver... Trabalhou três dias. Três ou quatro?

Dayelle não respondeu. Rafael tirou uma nota de cinqüenta Cruzeiros e deu a ela.
- Isto deve pagar.

Pegou o dinheiro, mas continuou de cabeça baixa, chorando.
- Vai deixá-la ir, querido? – perguntou Késsia ao marido.
- O que você quer que eu faça? Ela tomou a decisão... Ela é rápida para decidir. E olha que eu nem dei esta opção a ela. Ela tinha que escolher entre duas... Ela criou uma terceira.
- O bicho quando é acuado ele encontra uma direção doutor. – falou Dayelle.
- Bicho esperto não. Ele olha nos olhos de seu adversário e o domina quando se sente ameaçado e ataca primeiro vencendo o combate.
- É o que estou fazendo ao ir embora.
- Será?... Se acredita nisso, a estrada está a sua frente. Mas tome cuidado. No interior de onde veio tem bicho papão que amedronta as criancinhas. Aqui ele não amedronta; ele “papa” as mocinhas.

Dessa vez Dayelle só ouviu Lembrou-se do medo que sentiu quanto estava na rua.
- Mas já que tomou sua decisão... – continuou Rafael – Agora só me resta jantar.

Rafael virou as costas e saiu, enquanto os demais ficaram tentando convencê-la.
- Dayelle, eu sei que está com medo – falou Késsia – Mas pensa bem.
- Doutora, eu já pensei e é por isso que não posso voltar para casa. Se eu voltar, eu posso perder as esperanças de encontrar meu filho.
- Então, menina? É a chance de encontrar seu filho que queremos te dar. Não se preocupe. Saberemos conversar com seu pai e o convenceremos a deixar você vir conosco.
- Fala assim porque não conhece meu pai.
- Não conheço seu pai, mas conheço meu marido e sei do que ele é capaz.
- O doutor não está nem se importando. Quer me entregar no juizado de menor.
- Então vamos fazer o seguinte. Você passa esta noite aqui. Se até amanhã estiver pensando do mesmo jeito, eu mesma abro o portão para você sair. Combinado assim?

Dayelle, não tinha alternativa. Lembrou do dia que chegou e ficou perambulando pela cidade sem rumo, com fome, com sede e decidiu aceitar a oferta da doutora. Afinal, ela não era tão corajosa assim de ir para a rua e enfrentar a noite sozinha. E se aparecesse algum marginal? Um estuprador? Será que ia surgir outro super-Pedro para salvá-la? Melhor seria não confiar nesta possibilidade.

De armas depostas, vencida no combate, Dayelle voltou para o quarto.

Todos voltaram aos seus afazeres. Késsia foi fazer companhia ao marido que já estava na mesa, sendo servido por Rita.
- Posso servi-la, doutora? – perguntou Rita.
- Não. Obrigada. Lanchei antes de sair do hospital e estou sem fome.
- Come ao menos uma saladinha, querida. – pediu Rafael – Vai me deixar comer sozinho?
- Você já está terminando.
- Quem disse? Comecei agora.
- Está certo. Sirva-me uma salada, Rita.

Rita a serviu de salada de alface picadinha, acompanhada por outra de tomate e cenoura cozida.
- E a menina? – quis saber Rafael.
- No quarto.
- Bem tinhosa, a garotinha, hem?
- Qualquer mulher vira uma fera quando seu filho está em jogo.
- É na verdade tenho pena dela. Se a história for do jeito que ela contou, acho bem difícil encontrar essa criança.
- Será que sua mãe falou a verdade? Que não conhece a pessoa pra quem deu o menino?
- É bem provável. O avô se viu numa situação difícil de ter que sustentar mais uma boca e a avó, coitada, o que ia fazer?
- Ah! Querido, mas é muita maldade. Ela nem viu o filho.
- Na verdade eu acho que a avó agiu num momento de desespero. Ela não esperava que a filha fosse sobreviver. Dayelle não disse que ficou vários dias alienada e que alguns a davam por morta?
- O que pretende fazer amanhã?
- Levá-la a casa dos pais e conversar com eles.
- E se ela realmente não quiser ir?
- Não sei. De todo jeito, tenho que entrar em contato com a família dela. Hiiii! Tem um problema.
- Qual? – quis saber Késsia.
- As crianças. Chegam amanhã.
- Ainda bem estou morrendo de saudades deles.
- Eu também estou. Mas vamos sair daqui amanhã bem cedo. Cinco horas tiramos a Dayelle da cama. Vai ser até bom. O pensamento dela vai está meio lento e não vai conseguir ser tão malcriada.

Riram da observação e Rafael continuou:
- São três horas de viagem. Com uma hora agente resolve tudo com seus pais e mais três horas para voltar. As crianças vão chegar à tardinha. Estaremos aqui para recebê-las.

Rita estava ali ouvia toda a conversa sem opinar.
- Rita, não diga nada a ela do que ouviu aqui, certo? – Advertiu Rafael.
- Pode deixar doutor, será como o senhor deseja.

Terminado o jantar Rafael e Rita resolveram dar um passeio antes de dormir, pois a noite estava muito quente.
Rita recolheu a mesa, deixou mais ou menos arrumado para o dia seguinte. Ia ter que levantar mais cedo. Naquela noite não conversou com Pedro e Diogo como de costume. Foi direto para o quarto, onde Dayelle já estava deitada. Conversou um pouco com ela para convencê-la de levar os patrões para conversarem com seus pais. Sugeriu que ela confiasse neles, que ela não ia se arrepender. Depois tomou seu banho e se deitou também.

Rafael tinha várias qualidades; uma que merecia destaque era a de não deixar para depois o que podia fazer já. E a situação da menina Dayelle realmente lhe preocupava. Parecia uma boa menina, mas que a vida judiara dela. Rafael sentiu desejo de fazer algo por ela. Iria à casa de seus pais e resolveria toda aquela situação. Poderia não ser bem recebido, mas mesmo assim tinha que fazê-lo. Era o certo, uma vez que Dayelle era menor e fugira de casa. Outra qualidade de Rafael era de gostar das coisas certas. Não apenas por ser religioso, mas por fazer parte de seu caráter.

Na manhã bem cedo os Zandelly se levantaram e se aprontaram para sair.

Rita que levantara mais cedo, já prepara o café e foi chamar Dayelle.
Dayelle acordou, levantou-se ainda meio sonolenta e foi para o chuveiro. Tomou uma boa chuveirada e conseguiu despertar-se totalmente. Lembrou-se da noite anterior e o motivo pelo qual estava levantando tão cedo. Mas... Que remédio? Se um dia teria enfrentar seus pais, melhor seria enfrentá-los já. E se os Zandelly estavam dispostos a ajudá-la, tanto melhor. Não teria de enfrentá-los sozinha.

Vestiu sua calça jeans surrada com uma blusinha de malha preta que ganhara de Mirian e calçou a sandália preta; presente de Rita. Escovou os cabelos que pareciam mais um véu de seda, totalmente negros e brilhantes. Pegou seu livro de Vinícius de Morais. Não queria correr o risco de ficar sem ele caso seus pais a impedissem de voltar. Era algo de muito valor para ela. Nele ela descobriu as mais lindas frases de amor. E desde que Marcos foi embora, Vinicius de Morais era seu companheiro inseparável. Parecia lhe que o que estava escrito era unicamente para ela. Desde que Marcos partira, o ‘‘soneto de separação” já estava até gasto de tanto que ela lia. Tudo aconteceu tão de repente.

“De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente”.

As palavras do poetas se tornaram bálsamo para as feridas da menina que desejava apenas ser feliz com seu grande amor.

Saiu do quarto, atravessou o pequeno jardim e a área de serviço e foi para a cozinha onde estavam já Rafael, Késsia e Rita que os servia.
- Toma seu café, Dayelle – ordenou Rafael – Temos muito chão pela frente.
- Obrigada! Estou sem fome.
- Não é bom sair sem nada no estômago - observou Késsia.
- Não se preocupe comigo, doutora. É que não tenho hábito de comer nada assim tão cedo.
- Ao menos toma um copo de suco – foi falando Rafael e enchendo o copo, oferecendo a menina, que ficou sem jeito de recusar.

Após o café foram os três para o carro, iniciar a viajem programada. Rafael fazendo as recomendações de sempre aos seguranças e Késsia lembrando a Rita da chegada das crianças e assim, partiram para Vila de Rio Claro.

domingo, 6 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 08

CONTANDO SUA HISTÓRIA

Depois de arrumar os quartos, Dayelle ajudou Rita a arrumar a cozinha, lavou as louças e ajudou Celeste a lavar roupas.
- É menina, estou gostando de ver – comentou Rita – realmente você não tem medo de trabalho. Vejo que fiz bem em te aceitar aqui.
- Eu sempre trabalhei duro, dona... Quer dizer, Rita. Na roça a gente aprende cedo.
- E você? Não estuda?
- Estudei até a sétima. Parei quando ia começar a oitava.
- E porque parou?
- É que... Bom... É que eu tive um problema.
- Problema? Que tipo de problema uma menina da sua idade pode ter para parar de estudar? Ficou doente?
- Não exatamente.
- Então foi exatamente o quê?
- Não sei se devo falar.
- Ah, mas deve sim. Vamos, quero saber.
- Tenho vergonha. Tenho medo de você pensar que sou uma leviana.
- Você tem que idade, Dayelle?
- Quinze anos.
- Então me conta o quê que uma menina de quinze anos fez de tão grave?
- Bem... Eu e meu namorado... Você sabe.
- Ainda não sei de nada.
- Ai, Rita. É difícil falar essas coisas.
- Então deixa eu te ajudar. Você e seu namorado transaram.
- Não gosto desta expressão. Prefiro dizer que fizemos amor.
- E isto é motivo para parar de estudar?
- Isto não, mas a conseqüência disto. Eu engravidei.
- Você? Com quinze anos?
- Não com quatorze.
- Com quatorze? Que loucura, Dayelle! Mas... E seu namorado? Seu filho? Ficou com seus pais?
- Esta é uma longa história, Rita. Longa, triste, desesperadora. Você está diante de uma mãe loucamente desesperada.
- Senta, Dayelle – ordenou Rita - Me conta esta história.

Dayelle sentou-se e contou para Rita tudo o que se passou com sua vida. Seu amor pelo primo, sua gravidez, a rejeição de seus tios e pais. Inclusive a forma em que seu filho lhe foi tirado.

Rita e as demais empregadas ouviam atentamente a triste história de Dayelle. Uma menina tão jovem, quase uma criança. Como suportara tamanha tragédia? Concluíram enfim, que a vida lhe fora madrasta. Para uma pessoa adulta teria sido difícil passar por todo esse sofrimento. Imagine para uma criança.

E Dayelle lhes disse ainda que fugira de casa para trabalhar na cidade grande, juntar dinheiro o suficiente para ir atrás de seu filho. Não sabia por onde começar, mas uma coisa ela tinha certeza: Ia encontrá-lo. Nem que fosse a última coisa que faria em sua vida. Mas um dia ela abraçaria seu filho. Cada momento de sua vida seria dedicado a ele.

Rita e as outras colegas ficaram emocionadas com a história da menina. Mas ao mesmo tempo chocadas com a atitude de seus pais.
- Olha, Dayelle – falou Rita em fim –Vou tentar fazer algo para te ajudar. Você é uma menina trabalhadeira. Vou conversar com os patrões e tentar conseguir algo para você. Não prometo nada, mas vou tentar.
- Fico muito agradecida, Rita.
- Os patrões são pessoas muito boas. São evangélicos e conhecem muitas pessoas. Mesmo que não seja aqui. Talvez conheçam alguém que precisem de empregada.

Dayelle sentiu as lágrimas rolarem de seus olhos, Não sabia se pela emoção de ter revivido sua trágica história ou pela bondade de Rita. Pela chance de conseguir um emprego.

- Não chore menina. – Consolou Rita – Você vai realizar seu sonho. Você é bastante determinada. E isto é uma qualidade.

As outras a consolaram também. Dayelle parou de chorar e voltou a suas atividades.

Por voltas das quatro horas da tarde, Rita colocou diante de Dayelle um delicioso lanche. Tinha café, leite, suco, pão, manteiga, queijo e presunto, bolo e biscoitos. Dayelle nunca havia comido tão bem e tanto. Toda hora Rita lhe oferecia algo: uma fruta, bombons que ela mesma fazia, doces... No lanche a menina nem estava com fome. Aproveitou pouco dos alimentos.

Após o lanche resolveu conhecer o lado externo da mansão, pois não havia mais nada em que ela pudesse ajudar. Mirian já se arrumava para ir embora e Celeste, a lavadeira, já havia saído. Só Rita e Pedro permaneciam na casa. Douglas trabalhava no turno da noite e pela manhã ia embora.
Rita começava a se preparar para fazer o jantar.

Dayelle continuou sua exploração por aquele mundo tão fantástico. Passou pela piscina e viu Pedro sentado. Próximo à piscina havia vários bancos de ferros pintados na cor branca, um jardim de folhagem que circulava o murro. Mais adiante dois enormes pés de manga e um galpão grande, onde havia também uma churrasqueira.
- E aí, Dayelle? Muito serviço? – perguntou Pedro assim que viu a menina se aproximando.
- Nossa! E como!
- É! Aqui não é moleza não. Eu vejo o que as meninas passam para deixar tudo em ordem
- Como a Mirian dar conta de fazer tudo sozinha? Em duas nós demoramos à beça.
- E olha que as crianças nem estão em casa. Mas uma vez por semana vem uma diarista. Nem sei por que ela não veio esta semana.
- Ainda bem que ela não veio. Senão eu não teria tido esta oportunidade.
- Acho que teria sim. A Rita não ia agüentar olhar para esta carinha triste do outro lado do portão sem fazer nada.
- Minha tristeza estava tão em evidência, assim?
- Estava sim, mas o que te salvou foi o fato de ter procurado emprego. Menina da sua idade aqui não trabalha. Só estuda.
- Totalmente diferente da minha realidade. A maioria das meninas da minha idade só trabalha.
- Você não precisa parar de estudar para trabalhar. Pode freqüentar as aulas noturnas.
- Sério?
- Claro que sim. Eu mesmo terminei meus estudos depois de adulto.
- Tomara que eu consiga um emprego que dê para eu estudar! É o que eu mais gosto de fazer.
- Não se preocupe. Aposto que o doutor Rafael vai dar um jeito nisso.

Dayelle continuou seu reconhecimento, agora acompanhada por Pedro que ia lhe falando sobre tudo. Falou-lhe sobre a família Zandelly, o que cada um fazia e que eram todos evangélicos. Eles pertenciam a Igreja Evangélica Oásis de Deus. Era uma denominação que se preocupava muito com o convívio familiar. Os filhos aprendiam desde cedo a cultivar o amor entre irmãos, a viverem em harmonia. A obediência aos pais era primordial e conseqüentemente, aos mais velhos. Falavam tanto no amor ao próximo que a igreja era mais conhecida como Comunidade do Amor.

Pedro, sempre que podia, freqüentava as reuniões. Explicou que o galpão era freqüentado pelos irmãos da igreja que vinham fazer churrasco a convite da família. Érica e o Júnior se reuniam ali sempre com o grupo de louvor. Cantavam, tocavam e depois iam se refrescar na piscina com os demais jovens.

Anoiteceu. Dayelle foi para a ala dos empregados, tomou um banho. Ganhara algumas roupas usadas de Rita e estava doida para experimentá-las. Vestiu uma bermuda branca de Brim que lhe caiu muito bem e uma blusa azul clara de uma malha colante que revelavam ainda mais as silhuetas perfeitas de seu corpo de adolesceste.

Os doutores também não chegaram cedo naquela noite e nem na seguinte. Rita não pôde conversar com os patrões.
Dayelle continuou lá por três dias sem que eles soubessem.

sábado, 5 de dezembro de 2009

CAPITULO 07


A PRIMEIRA OPORTUNIDADE
Vendo aquele homem caminhando em sua direção e completamente sozinha e indefesa Dayelle se arrependeu amargamente de ter fugido de casa.
Pensou em correr, mas para onde? Não via ninguém a quem pudesse pedir socorro. E as lágrimas começaram a cair espontaneamente de seus olhos entre soluços e súplicas:

- Por favor, Não me faça nenhum mal.- conseguiu balbuciar, enfim.
- Mal? Quem disse que quero te fazer mal? Não está me reconhecendo? Calma menina. Sou o segurança da mansão dos Zandelly. Vim te trazer algo para comer.

Dayelle foi se acalmando.

- Sou o Pedro, não me reconhece?
Mais calma, ela o reconheceu.
- Graças a Deus! É o senhor mesmo!
- Claro que sou eu. Estava a sua procura. Fui à pracinha, nas ruas próximas. Já estava desistindo quando decidir dar uma passada por aqui.
- Desculpa, por ter me assustado. Pensei que fosse um marginal.
- E poderia ser mesmo – advertiu – isto aqui é muito perigoso.
- É que não tenho para onde ir.
- Venha, entra no carro. Por hoje vou te arrumar um local para dormir. Lá você come e amanhã decidirá sua vida.
Dayelle entrou no carro, dando graças a Deus. Definitivamente não estava preparada para viver nas ruas. Era muito medrosa.
Pedro a levou para a mansão, conversou com seu parceiro Diogo e colocou um colchão na garagem para a menina, pois as empregadas já estavam dormindo.
Ela comeu a comida que Rita preparara, tomou água, deitou e pode dormir tranqüila. Não antes de ser advertida que teria de levantar bem cedo, antes que os patrões acordassem. Pedro não pediu o consentimento deles para a menina pernoitar ali. Aliás, ainda nem sabiam da existência dela. Chegaram muito tarde e não deu tempo para conversar sobre o assunto.


Dayelle dormiu o resto da noite sem acordar. Despertou com o dia claro. Rita que levantara bem cedo para fazer o café, depois de tudo preparado e na mesa, levou Dayelle para o alojamento dos empregados. Dayelle ficou lá até os Zandelly irem para o trabalho. Aproveitou a bondade de Rita que lhe ofereceu uma toalha, tomou um banho e trocou de roupas. Sentiu-se renovada. Bem alimentada e de banho tomado, sentiu-se revigorada. Agora ela tinha certeza que tudo ia dar certo.
Conversou com as outras empregadas, falou sobre sua loucura de tentar a vida na cidade grande e como fora parar ali.
Sentiu que era hora de colocar a mão na massa e foi a procura de Rita.
A mansão parecia ainda mais deslumbrante vista do lado de dentro. As janelas com seus vidros cristalizados, todas em estilo colonial. A entrada principal possuía uma passarela de flores, com suas enormes portas de vidro topázio, que combinava com a cor das paredes creme e faixas brancas. Dalém dos jardins, dois portões: o social e um que dava aceso para garagem. Dayelle se pudesse passaria o dia todo só observando a beleza daquele mundo que mais parecia um sonho, mas tinha que trabalhar. Era para isso que estava ali. Entrou pela área de serviço e foi à procura de Rita.
Encontrou-a na cozinha. Ao se deparar com aqueles utensílios domésticos, Dayelle ficou deslumbrada. Nunca vira tanta coisa bonita junta. Tudo branquinho de dar gosto. Deste o piso até ao teto. Nada de panelas penduradas pelas paredes como em sua casa ou até mesmo na casa de seu Joaquim. Armários, fogão, refrigeradores, tudo combinavam. Dayelle sentiu certo receio. Não tinha coragem de tocar em nada. Como iria ajudar na faxina? Aliás, para quê faxina? Tudo parecia tão limpo e organizado.

- E aí Dayelle, pronta para começar? – falou Rita interrompendo seus pensamentos.
- Claro, senhora. Não vejo a hora de pegar no batente - Falou entusiasmada.
- Pode me chamar apenas de Rita. Aqui eu sou igual a você mesma.
- Está certo... Rita.
- Suba com a Miriam até os quartos e ajude-a na arrumação.

Mirian era a arrumadeira. Uma jovem senhora de 24 anos. Tinha um filho de 3 anos e por isso, deveria ir para casa todos os dias. Trabalhava de segunda a sábado.
Dayelle acompanhou Mirian escada acima que formava um meio caracol até aos dormitórios.

- Quantos cômodos têm esta casa? – quis saber a menina.
- Onze – respondeu Mirian
- Nossa!
- Isso sem contar os banheiros e a ala dos empregados.
- Quantas pessoas vivem aqui?
- Cinco. Doutor Rafael, doutora Késsia e seus três filhos, Érica, Júnior e Kiria.
- Onde estão os filhos dos doutores?
- Viajando em férias. Mas vamos deixar de conversa e vamos trabalhar. Você arruma os quartos deste lado – apontou – e eu arrumo o outro. Quem terminar primeiro ajuda a outra.

Dayelle entrou em um dos quartos, que com certeza era de uma das meninas. Tinha bonecas de todos os tipos. Uma mais linda que a outra. As cortinas em rosa claro davam um tom todo feminino ao ambiente. Viu um pequeno certificado sobre uma escrivaninha. O quarto era de Érica. Viu algumas fotos dela. Era uma adolescente de olhos azuis, cabelo loiro até a altura dos ombros.
Tratou logo da arrumação do quarto. Estendeu a cama com uma colcha também rosa, tirou poeira dos móveis, bateu os tapetes, lavou o banheiro, organizou o que estava espalhado. Deixou tudo limpinho e passou para o quarto seguinte. Fez as mesmas coisas e foi repetindo a operação em todos os quartos. De acordo com que ia arrumando, ia descobrindo a quem pertencia, devido ao estilo do quarto e fotos. Ao meio dia fez uma pausa para o almoço retomando suas tarefas logo em seguida.


sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 06

UM LUGAR PARA DORMIR

Enquanto caminhava de volta para praça é que Dayelle se deu conta de que não tinha onde dormir. Como não pensou nisso antes? E agora? Saiu de casa só pensando em arrumar emprego. Nem se quer pensou em um lugar para ficar. Viu-se diante de um grande problema. Ela que morria de medo de dormir sozinha. Sempre dormiu rodeada pelos irmãos. E se aparecesse um marginal, um ladrão? Mas o que um ladrão ia querer com ela? Pensou. De longe se via que não tinha nada. Bem, esse medo ela não correria.
- Esquece o medo Daye. – tentou se encorajar – A praça é toda iluminada. Não tem perigo algum. Além do mais, está um calor de rachar. Paredes só iam fazer esquentar muito mais.

Lembrou-se que no salão de beleza do outro lado da rua tinha tv. Resolveu ir para lá. Mais tarde voltaria para a praça.

Chegou, ficou em pé do lado de fora com medo de ser chamada a atenção. Via as madames saírem todas bem penteadas.

O salão estava cheio. As cabeleireiras, as manicuras e pedicuras tinham que se desdobrarem para darem conta do serviço. De vez em quando as meninas do salão olhavam para ele.

Como não podia passar despercebida, uma cabeleireira se aproximou dela. Dayelle sentiu-se ameaçada e ia fugindo.
- Calma menina! – Falou a cabeleireira – Vem cá, quero ver seu cabelo.

- O que teria seu cabelo de errado? - Pensou Dayelle. Mas obedeceu e voltou.
- Gente, que cabelo lindo! – falou a profissional enquanto os cabelos de Dayelle escorriam entre seus dedos de tão sedosos e macios – o que você usa?
- Ah, moça, Nada! Só lavo mesmo.
- Nada? Ele é natural?
- Como assim? Natural?
- É! Você nunca usou nada?
- É como eu falei: só lavo.

De repente Dayelle estava rodeada de mulheres que lançavam elogios e admiração aos seus cabelos. Até os homens se admiravam.
- É mesmo muito lindo! – falou a outra cabeleireira – só precisa tirar as pontas. Dar uma acertada.
- Você não é daqui. Não me lembro de você – falou a outra.
- Sou do interior, cheguei hoje.
- Vai ficar aonde? Tem pra onde ir?
- Tenho! – respondeu rapidamente – Tenho sim – Só estou dando um tempo. Está muito calor.
- Está quente mesmo. Mas pode entrar para assistir TV. Sente-se ali – indicou um lugar.
Dayelle agradeceu, entrou e sentou.
- É mesmo muito lindo o seu cabelo – falou ainda admirada a cabeleireira.

Todas as pessoas foram atendidas pelas profissionais de acordo com suas necessidades e uma a uma foi deixando o salão.


Dayelle permaneceu lá até o salão fechar. Despediu-se de todas e agradeceu a gentileza e foi caminhando em direção à praça.

Já não havia tantas pessoas na praça. Apenas alguns que passavam por ela, com certeza, voltando para suas casas. Na lanchonete “Aki Tem” algumas pessoas lanchavam. O que mais se tomava eram sorvetes devido ao calor.

Dayelle colocou sua mochila como travesseiro em um banco um pouco afastado da rua e tentou dormir um pouco. Ouvia as gargalhadas das pessoas na lanchonete. Fechou os olhos e começou a dormir, pois estava muito cansada. Uma folha da árvore caiu sobre seu rosto, o que fez com que acordasse assustada. Sentou-se depressa, com o coração quase saindo pela boca. Teve a impressão de ter sido tocada por alguém.
– E se alguém tentasse molestar-me? – pensou.

Lembrou que alguns rapazes lhe disseram gracinhas. E se ficasse ali e fosse agarrada e estuprada? Melhor seria procurar outro lugar para dormir. Levantou, apanhou sua mochila e saiu. Talvez pudesse dormir na calçada do Monteiro & Cia. Lá ela poderia se esconder atrás da caçamba de lixo. Tratou logo de colocar sua idéia em prática.

Dayelle arrumou algumas caixas de papelão que estavam no lixo do Monteiro e Cia, forrou com alguns jornais limpos que havia ali, fez a mochila de travesseiro e assim, atrás da caçamba de lixo deitou-se. Fechava os olhos para ver se o sono vinha, mas nada de dormir. Não havia mais ninguém na rua. Todos haviam se recolhido em seus belos palácios. Ao longe alguns cães latiam fazendo a guarnição de seus senhores. Dayelle sentia medo. Chegou até mesmo se arrepender de ter saído de casa. Mas não podia aceitar pacificamente a maldade que seus pais fizeram. Sem encontrar seu filho é que não ia ficar. Estava decidida. Tinha que valer a penas seu sacrifício. E assim, pensando em tudo, Dayelle adormeceu.

Subitamente foi acordada com dois faróis de carro sobre ela, cegando-lhe os olhos. Entrou em desespero e imediatamente se colocou de pé, pensando o pior. No interior sempre ouvia falar de homens que pegavam adolescentes para “fazer a vida”. Seu pai sempre falava que não era fácil criar filhas na cidade grande. Ou elas caiam na vida porque queriam ou então eram levadas contra sua vontade. Dayelle tremia toda. Quis correr, mas não conseguia mover-se. Viu a porta do carro se abrir e um homem sair de dentro dele. O homem caminhou em sua direção em passos rápidos e Dayelle fez a única coisa que era capaz de fazer: gritou, gritou, gritou em altos pulmões. E a cidade completamente deserta.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 05

A CHANCE

Enquanto esperava a hora de voltar à mansão Zandelly, resolveu dar uma caminhada pela cidade. Quanto mais ela andava, mais se admirava. Lojas elegantes, Salões de beleza. Tinha até uma loja para animais. Vestidinhos, lacinhos, sapatinhos. Lá dentro uma cadelinha branca toda peludinha experimentava um modelito. Dayelle riu da cena. Nunca viu cachorro vestir roupa.

Seguiu em frente. Viu uma academia de ginástica e através da vidraça observou que algumas pessoas malhavam. E assim, ia fazendo descobertas e mais descobertas. Lojas, igrejas, supermercados – tinham outros além do Monteiro & Cia – farmácias, locadoras de vídeos. Chegou até se perder pela cidade e precisou de ajuda para encontrar a pracinha. Eram mais de seis da tarde quando conseguiu voltar. Seguiu para a mansão dos Zandelly. Chegando ao portão, estavam conversando o segurança e uma senhora.
- Será que é a dona da casa – perguntou-se Dayelle.

O segurança a reconheceu e comentou alguma coisa para a companheira e foram falar com Dayelle.
- Olá, Boa noite – falou para ambos – estive aqui hoje cedo.
- Então você é a menina que procura emprego? – quis saber a senhora, caminhando em sua direção, abrindo o portão. – O que sabe fazer?
- Há! Numa casa sei fazer de quase tudo; lavo, passo, arrumo. Só não sei cozinhar para pessoas tão chiques, mas se me ensinar, eu aprendo rápido.
- Vejo que tem disposição.
- É o que mais tenho, senhora. Não vai se arrepender, se me der oportunidade. Estou acostumada a trabalhar duro.
- Bem... Emprego fixo eu não tenho como te dar. Só os patrões podem fazer isto. E hoje eles vão demorar. São médicos e, você sabe, não têm hora para chegar.
- Entendo... – falou a menina desolada,
- Mas venha amanhã. Numa casa como esta há sempre muito trabalho e ajuda nunca é demais. Os doutores são pessoas muito bondosas, estão sempre ajudando quem precisa. Não vão se incomodar em te dar alguma coisa para ajudar na limpeza. A não ser que você não queira.
- Não...
- Não?
- Não, quer dizer, sim. Desculpa, estou meio atrapalhada. Quero sim é muita bondade da senhora.
- Então está combinado. Amanhã eu te espero, certo?
- Está certo. Muito obrigada. Até amanhã e uma boa noite.
Despediu-se e saiu.

- Pobre menina! – exclamou o segurança.
- Acha que fiz certo, Pedro? Estou com medo dos patrões não gostarem. Afinal, a gente nem conhece essa menina.
- E você acha que eles se incomodam com isso, Rita? Conhecendo os patrões como conheço, eles fariam o mesmo ou até mais. Seria bem capaz de acolhê-la, aqui.
- É verdade. Eles não agüentam ver crianças sofrendo.
- Com certeza iriam brigar, se não tivéssemos feito nada. Principalmente ao saber que ela veio do interior a procura de emprego. Doutor Zandelly diz que bandido não procura emprego. Só quer facilidade. Quem quer trabalhar tem fome.
- Hi, Pedro! Coitada! Deve está com fome e não oferecemos nada. Tem tanta comida pronta. Amanhã vai tudo para o lixo.
- E eu acho que ela não tem ninguém aqui, não. Ela está andando com aquela mochila desde cedo.
- É! Como você disse: pobre menina!

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