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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 10

DE VOLTA AO LAR

Durante a viajem Dayelle pouco falou. Apenas respondia quando Rafael ou Késsia perguntavam alguma coisa. Em seu coração ela temia a reação de seus pais. Sempre fora uma boa filha, porém se seus pais a impedissem de voltar para a cidade grande, ela estava disposta a fugir de novo.

Após duas horas de viagem Rafael parou em uma lanchonete de beira de estrada a pedido de Késsia.
- Vamos aproveitar esta parada, Dayelle – falou Rafael – e come alguma coisa. Deve está com fome.

Dayelle entrou com eles na lanchonete. Foi ao banheiro com Késsia enquanto Rafael fazia os pedidos.

Dayelle estava com sua alma temerosa, angustiada. Talvez nem conseguisse comer. Entrou no banheiro e aproveitou para chorar. Sentia uma dor tão grande de pensar que talvez nunca fosse ao menos saber como era o rosto de seu filho. As lágrimas brotavam facilmente de seus lindos olhos verdes e rolavam por sua face serena. Poderia haver dor maior que esta? Perguntava-se em seu coração.
- Dayelle, você está aí? – perguntou Késsia percebendo sua demora.
- Já estou saindo – respondeu lá de dentro, fazendo um esforço para a voz parecer natural.

Saiu enfim, de cabeça baixa para a doutora não perceber que chorava e foi direto para a pia se lavar. Késsia percebeu que seu rosto estava triste, olhos vermelhos, e tocou suavemente seus cabelos.
- Oh! Minha querida!

Colocou as duas mãos sobre os ombros de Dayelle num gesto todo maternal e carinhosamente como uma verdadeira mãe que tenta amenizar o sofrimento de uma filha.

Com aquele gesto tão carinhoso Dayelle desabotoou em lágrimas e soluços novamente, agora com mais intensidade, sem receio de revelar seus sentimentos.
Késsia a abraçou movida pela compaixão.
- Vai passar, meu anjo! Eu sei que vai – falava Késsia com ternura.
- Dói demais doutora! Eu queria estar morta!
- Não! Não diga isso!
- Digo sim, doutora. Porque eu não morri quando estava no hospital? Eu não estaria passando por tudo isso.

Dayelle chorava abraçada com a doutora, enquanto esta tentava lhe acalmar.
- Calma, meu anjo! Deus não quis que você morresse. Eu tenho certeza de que ele vai te ajudar. Não é à toa que te salvou a vida e fez você descobrir a verdade sobre seu filho. Nada acontece por um acaso, Dayelle. Deus tem seus objetivos.
- Objetivos de me fazer sofrer, isto sim. – retrucou a menina – Deus é mal.
- Não! Deus é justo!
- Levar meu filho de mim é justiça, doutora? – falou Dayelle agora olhando para Késsia.
- Dayelle, nem uma folha cai de uma árvore se não for da vontade de Deus.
- É vontade de Deus me fazer sofrer?
- Claro que não. O pecado nos leva ao sofrimento.
- É pecado amar um filho? Desejá-lo mais do que a própria vida?
- Olha, quando voltarmos, vamos continuar esta conversa. Não dentro de um banheiro, mas em casa sentadas num sofá confortável.
- Se é que vou voltar, doutora.
- Se faz sentir-se melhor, eu prometo que vou fazer de tudo para convencer seus pais a deixarem você voltar com a gente. Deus te colocou em nosso caminho e eu sei que ele tem algum objetivo. Entre tantas casas, você foi bater justamente na minha. Você acha que isto é coincidência?
- Acho que não. – falou Dayelle, balançando a cabeça negativamente. O choro já havia passado.
- Rafael e eu vamos te ajudar. Eu sei que a primeira impressão que ele te deixou não foi nada boa, mas você vai descobrir que ele é um cara legal.
- Está muito difícil de acreditar.
- Sua opinião vai mudar. Confia em mim. E agora, chega de lágrimas, de tristezas e de conversa e vamos lanchar. Doutor Rafael deve está preocupado conosco.
Saíram do banheiro abraçadas e de longe viram Rafael sentado esperando pacientemente por ambas. Késsia não se conteve ao ver o marido tão tranqüilamente e disse a Dayelle:
- Veja, Dayelle, pode haver homem mais maravilhoso do que este?
- Nem me atrevo a adivinhar seus pensamentos. Tremo só de pensar.

Riram do comentário enquanto se aproximavam da mesa.
- Demoraram – disse Rafael.
- Mulheres no banheiro. Sabe como é. - Disse Késsia enquanto beijava o marido.
- É! Eu sei como é. Por isso tomei a liberdade de pedi um suco de acerola para as duas, uns salgadinhos...
- Está ótimo, querido! Obrigada.
- Tudo bem pra você, Dayelle? – Perguntou Rafael – Se não gostar pode pedir outra coisa.
- Está bom sim, obrigada.
- De nada!

Assim que todos terminaram o lanche, Rafael pagou a conta e voltaram para a estrada dando continuidade à viagem.
Dayelle depois de bem alimentada e de desabafar um pouco as mágoas com Késsia, vencida pelo cansaço de ter levantado muito cedo acabou adormecendo.

Késsia aproveitou para falar com o marido sobre a conversa que teve com a menina no banheiro. Falou de seu medo de não poder voltar e o quanto ela chorou ao lembrar-se do filho e de sua incerteza de um dia vê-lo.
- Acha que devemos tocar no assunto do filho dela com seus pais? – perguntou Késsia.
- De modo algum. – falou Rafael –. E mais: vamos advertir Dayelle também para que não faça.
- E como vamos descobrir com quem está o menino?
- Tudo ao seu tempo. Hoje vamos apenas lhes falar sobre Dayelle e como apareceu lá em casa. E que queremos que ela trabalhe conosco e que ela terá a oportunidade de estudar. Vamos ajudá-la até se formar.
- E se o pai tentar bater nela?
- Acho que não fará isto. Geralmente pessoas do interior são mais educadas do que as da cidade. São ignorantes em matéria de conhecimento não em suas atitudes.

E assim continuaram a viagem. Quando entraram em Vila de Rio Claro Rafael pediu que Késsia acordasse Dayelle para que lhe mostrasse o caminho de sua casa. Dayelle sonolenta viu quando passavam pela rodoviária. Viu a loja da Margô, o armazém de seu Joaquim. Muitas pessoas conhecidas. Tiane estava na pracinha conversando com João Alicio. Namoravam escondidos dos pais de Tiane.

Não permitiam o namoro porque João Alicio era músico e tocava em uma banda. E músico era profissão de vagabundo. Diziam eles.

Deixaram a Vila e entraram em uma estrada de chão que Dayelle conhecia muito bem. Sempre que via um conhecido, Dayelle abaixava a cabeça para não ser reconhecida. Viu seu irmão Wagner que passava de bicicleta indo para a Vila. Num instante ela avistou o Rancho Floresta. A pé da Vila, levava cerca de quarenta minutos para chegar. De carro, teve a impressão de não levar nem cinco. De longe Dayelle avistou sua mãe estendendo roupas no varal. Sua irmã Damaris estava brincando com seu irmãozinho Wender.
Todos pararam o que estavam fazendo quando viram o carro se aproximando com olhar surpreso.
As crianças correram em direção ao carro para ver de quem se tratavam.
Dayelle dentro do carro sentiu o coração bater mais forte e suas mãos estavam geladas. Mesmo com o ar condicionado ligado, ela esta suando. Sentiu uma tontura e quis se abaixar para não ser reconhecida, mas era tarde demais.
- É a Daye, mãe – gritou Damaris bem próxima do carro, seguida por Wender.

Rafael parou e saíram do carro. Rafael e Késsia saíram primeiro. Logo em seguida, Dayelle, toda envergonhada, saiu também.
Todos saíram de dentro de casa e rodearam os três como se fosse um grupo apache.

Sua mãe, ao vê-la, não sabia o que fazer ou dizer. Não pode conter a alegria de saber que sua filha estava bem. Chegou até mesmo chorar. Não abraçou a filha. Não era costume da família manifestar sua emoções tão afetivamente, mas todos puderam perceber a alegria em seus olhos por rever a filha.
- A bênção, mãe. A benção tia.
- Deus te abençoe. – responderam.
- Bom dia – disse Rafael interrompendo a emoção, estendendo a mão para a mãe de Dayelle – Sou doutor Rafael e esta é minha mulher, doutora Késsia.
- Bom dia doutor. Sou Judite, a mãe desta sem juízo. – e virando para Késsia – Como vai doutora?
- Bem, obrigada! É um prazer!

Cumprimentaram se todos, e, Rafael continuou:
- Viemos conversar com você e seu marido. Ele está?
- Ele está na lida, doutor. Vou mandar chamar. Vai Damaris... – olhou em volta, mas não encontrou a filha – Cadê essa menina?
- Ela foi pá lá, mamãe. – mostrou Wender com seu dedinho minúsculo de dois aninhos.
- Pode deixar tia – falou Adriana – Eu vou chamar o tio.
- Então vá bem depressa. Fala com ele pra deixar tudo e vim correndo.

Adriana é uma prima de Dayelle que vive com eles desde de bem pequena. Sua mãe, irmã de Judite, morreu de câncer.

- Mas venha, doutor, vamos entrar – convidou Judite – Num repara não, doutora. E casa de pobre.

Entraram todos. Rafael ficou comovido com tamanha pobreza e Késsia parecia sentir o mesmo. Judite lhes ofereceu cadeiras para que se sentassem enquanto aguardavam a chegada de Jerônimo.

- Você quase nos mata de preocupação, Daye – falou Judite à filha – O que deu em sua cabeça?
- Ah! Mãe! Sentir vontade mudar de vida. Aqui as coisas são muito difíceis. Resolvi tentar a vida na cidade grande.

Desejou falar a verdade para sua mãe. Que fugira para procurar seu filho, mas lembrou-se que foi advertida para não tocar neste assunto.
- Mas precisava fugir, minha filha? Te procuramos por toda parte. Até que o Wagner lembrou de perguntar na rodoviária se você tinha aparecido por lá. O rapaz da bilheteria é amigo dele e falou que vendeu a passagem para você.
- O Wagner o conhece? Ele me conhece?
- Ele lembrou de você. Então o Wagner foi à delegacia e deu parte do seu sumisso. Os policiais estão te procurando lá em Tupamirim. Ele acabou de sair. Foi a delegacia para ver se tem noticias suas.
- Eu o vi quando vínhamos. Passou por nós de bicicleta.
- É, Daye, você deixou todo mundo preocupado. Seu Joaquim pegou o carro e rodou a vila inteira a sua procura.
- Perdoa-me, mãe, eu não sabia que ia causar tanta preocupação. E o pai? Está muito zangado comigo?
- Você sabe como é o seu pai; ele sente, mas não dá o braço a torcer.
- Mãe você precisa me ajudar convencer o pai a me deixar voltar para Tupamirim. Os doutores estão dispostos a me ajudar.
- É pra isso que estamos aqui, Judite – falou Rafael participando da conversa – Viemos conversar com você e seu marido.
- Mas a Dayelle já conhecia vocês? De onde? – Quis saber Judite.
- Não! Não nos conhecíamos, mas eu prefiro esperar o Jerônimo chegar. Então eu explicarei tudo.
- O senhor está certo. Vou aproveitar e passar um café fresquinho.

Judite foi fazer o café enquanto os doutores continuavam conversando com Dayelle, sua tia e até as crianças estavam curiosas para saber algo sobre a cidade grande. Judite também participava da conversa, pois todos estavam na cozinha. Conversavam animadamente. Dayelle já se sentia até mais calma em seu ambiente familiar.
Damaris que desaparecera com a chegada da irmã, reapareceu, seguida por dona Almerata que resolveu testificar com seus próprios olhos o aparecimento da menina. Chegou esbravejando, chamando a atenção dela e puxando suas orelhas, mas não disfarçava a alegria de vela bem.

E assim todos conversavam animadamente, aguardando a chegada de Jerônimo.

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