Pensou em correr, mas para onde? Não via ninguém a quem pudesse pedir socorro. E as lágrimas começaram a cair espontaneamente de seus olhos entre soluços e súplicas:
- Por favor, Não me faça nenhum mal.- conseguiu balbuciar, enfim.
- Mal? Quem disse que quero te fazer mal? Não está me reconhecendo? Calma menina. Sou o segurança da mansão dos Zandelly. Vim te trazer algo para comer.
Dayelle foi se acalmando.
- Sou o Pedro, não me reconhece?
Mais calma, ela o reconheceu.
- Graças a Deus! É o senhor mesmo!
- Claro que sou eu. Estava a sua procura. Fui à pracinha, nas ruas próximas. Já estava desistindo quando decidir dar uma passada por aqui.
- Desculpa, por ter me assustado. Pensei que fosse um marginal.
- E poderia ser mesmo – advertiu – isto aqui é muito perigoso.
- É que não tenho para onde ir.
- Venha, entra no carro. Por hoje vou te arrumar um local para dormir. Lá você come e amanhã decidirá sua vida.
Dayelle entrou no carro, dando graças a Deus. Definitivamente não estava preparada para viver nas ruas. Era muito medrosa.
Pedro a levou para a mansão, conversou com seu parceiro Diogo e colocou um colchão na garagem para a menina, pois as empregadas já estavam dormindo.
Ela comeu a comida que Rita preparara, tomou água, deitou e pode dormir tranqüila. Não antes de ser advertida que teria de levantar bem cedo, antes que os patrões acordassem. Pedro não pediu o consentimento deles para a menina pernoitar ali. Aliás, ainda nem sabiam da existência dela. Chegaram muito tarde e não deu tempo para conversar sobre o assunto.
Dayelle dormiu o resto da noite sem acordar. Despertou com o dia claro. Rita que levantara bem cedo para fazer o café, depois de tudo preparado e na mesa, levou Dayelle para o alojamento dos empregados. Dayelle ficou lá até os Zandelly irem para o trabalho. Aproveitou a bondade de Rita que lhe ofereceu uma toalha, tomou um banho e trocou de roupas. Sentiu-se renovada. Bem alimentada e de banho tomado, sentiu-se revigorada. Agora ela tinha certeza que tudo ia dar certo.
Conversou com as outras empregadas, falou sobre sua loucura de tentar a vida na cidade grande e como fora parar ali.
Sentiu que era hora de colocar a mão na massa e foi a procura de Rita.
A mansão parecia ainda mais deslumbrante vista do lado de dentro. As janelas com seus vidros cristalizados, todas em estilo colonial. A entrada principal possuía uma passarela de flores, com suas enormes portas de vidro topázio, que combinava com a cor das paredes creme e faixas brancas. Dalém dos jardins, dois portões: o social e um que dava aceso para garagem. Dayelle se pudesse passaria o dia todo só observando a beleza daquele mundo que mais parecia um sonho, mas tinha que trabalhar. Era para isso que estava ali. Entrou pela área de serviço e foi à procura de Rita.
Encontrou-a na cozinha. Ao se deparar com aqueles utensílios domésticos, Dayelle ficou deslumbrada. Nunca vira tanta coisa bonita junta. Tudo branquinho de dar gosto. Deste o piso até ao teto. Nada de panelas penduradas pelas paredes como em sua casa ou até mesmo na casa de seu Joaquim. Armários, fogão, refrigeradores, tudo combinavam. Dayelle sentiu certo receio. Não tinha coragem de tocar em nada. Como iria ajudar na faxina? Aliás, para quê faxina? Tudo parecia tão limpo e organizado.
- E aí Dayelle, pronta para começar? – falou Rita interrompendo seus pensamentos.
- Claro, senhora. Não vejo a hora de pegar no batente - Falou entusiasmada.
- Pode me chamar apenas de Rita. Aqui eu sou igual a você mesma.
- Está certo... Rita.
- Suba com a Miriam até os quartos e ajude-a na arrumação.
Mirian era a arrumadeira. Uma jovem senhora de 24 anos. Tinha um filho de 3 anos e por isso, deveria ir para casa todos os dias. Trabalhava de segunda a sábado.
Dayelle acompanhou Mirian escada acima que formava um meio caracol até aos dormitórios.
- Quantos cômodos têm esta casa? – quis saber a menina.
- Onze – respondeu Mirian
- Nossa!
- Isso sem contar os banheiros e a ala dos empregados.
- Quantas pessoas vivem aqui?
- Cinco. Doutor Rafael, doutora Késsia e seus três filhos, Érica, Júnior e Kiria.
- Onde estão os filhos dos doutores?
- Viajando em férias. Mas vamos deixar de conversa e vamos trabalhar. Você arruma os quartos deste lado – apontou – e eu arrumo o outro. Quem terminar primeiro ajuda a outra.
Tratou logo da arrumação do quarto. Estendeu a cama com uma colcha também rosa, tirou poeira dos móveis, bateu os tapetes, lavou o banheiro, organizou o que estava espalhado. Deixou tudo limpinho e passou para o quarto seguinte. Fez as mesmas coisas e foi repetindo a operação em todos os quartos. De acordo com que ia arrumando, ia descobrindo a quem pertencia, devido ao estilo do quarto e fotos. Ao meio dia fez uma pausa para o almoço retomando suas tarefas logo em seguida.

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