QUERIDOS LEITORES

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Obrigada a todos.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

CAPÍTULO 04

A FUGA


Havia se passados quarenta dias desde que Dayelle deu a luz. Seu irmão Wagner voltou da vila trazendo um recado para ela. Dona Zélia, mulher de seu Joaquim da Mercearia mandou chamá-la para ajudar na faxina de sua casa. Dayelle aceitou. Precisava mesmo de dinheiro para o que pretendia fazer. Sua mãe, que não sabia suas intenções, a animou-a:
-Vai mesmo, Daye. Assim você pode comprar uma roupa melhor para ir à escola. Aproveita e faz sua matrícula.

No dia seguinte Dayelle foi. Trabalhou o dia todo, Recebeu dez Cruzeiros. Iria guardar o dinheiro não para comprar roupas, mas para ir para a cidade grande trabalhar. Antes de ir embora, seu Joaquim perguntou se ela podia voltar para arear as mesinhas de bar.
-Posso sim. Estão mesmo precisando de uma boa limpeza.
-Então está certo – disse seu Joaquim – pode ser amanhã?
-Claro! Amanhã às sete horas estarei aqui.
-Melhor as oito – corrigiu seu Joaquim.
-Então, até amanhã, às oito.

Despediu-se e foi em direção a rodoviária. Precisava saber o valor da passagem para a cidade de Tupamirim. Em poucos dias ia deixar para trás a vila de Rio Claro e provavelmente não retornaria a fazenda do Rancho Floresta. Só ficaria até conseguir o dinheiro.


Trabalhou no dia seguinte. Fez outras faxinas em outras casas e conseguiu juntar o dinheiro para o que queria. Até mais que precisava.
Na última faxina que fez, comprou a passagem. Lembrou que sua mãe reclamou que estava sem açúcar e quase sem óleo. Comprou no seu Joaquim o que faltava com o resto do dinheiro que sobrara e foi para casa, pensando como ia fazer para fugir.

Apanhou sua mochila que ganhara de Dona Almerata e nela colocou seus pertences. Pouca coisa para ninguém desconfiar. Começou a tramar o que ia dizer aos seus pais, para não suspeitarem de nada. Tinha que ser um bom plano, pois queria que, quando eles percebessem que ela tinha fugido, já estivesse longe. Assim ia ficar difícil encontrá-la. Tupamirim é muito grande.
Tinha comprado passagem para a 8:15. Pensou, pensou e teve uma idéia.
-Mãe, vou amanhã trabalhar com dona Ana salgadeira.
-Mas você não sabe fazer salgado.
- Eu vou aprender. Ela sempre precisa de alguém pra ajudar mesmo.
- E a Helô e Madalena? Elas não trabalham mais pra ela?
Estava ficando difícil mais tinha que continuar a farsa.
- Elas vão também. São dez mil salgados.
- Tanto assim? Quem é que vai dá esta festa?
- Ainda não sei. E ela pediu pra levar uma roupa, pois vamos trabalhar até tarde e vai ficar difícil voltar. E se não darmos conta, vamos continuar no outro dia.
- O que você acha, Jerônimo? Perguntou ao marido que ouvia tudo calado.
- A salgadeira é mulé direita. É bom ela ir. Melhor do que ficar em casa pensando bobagem. Mente desocupada é oficina de satanás.
- Está certo, você vai; mas olha o comportamento. Não quero ouvir falar que ficou pela rua com aquela Tiane.
- Nem se eu quisesse não ia dá, mãe; são dez mil salgados. Eu preciso de dinheiro para comprar um tênis. Hoje eu já gastei do que tinha para comprar açúcar e óleo.
- Dá um jeito de avisar se for ficar até depois de amanhã.

Ufa! Que alívio. O primeiro passo tinha sido dado. Agora era torcer para que ninguém conhecido a visse embarcar.

Naquela noite deitou cedo, mas não conseguia dormir. A ansiedade tomou conta e parecia que o dia não ia chegar nunca. Virava para um lado, virava para outro. Foi a cozinha, tomou água e nada do dia clarear. Voltou para a cama e vencida pelo cansaço, acabou adormecendo. Acordou com o cheiro do café que sua mãe preparava par seu pai levar para a roça.
Levantou-se depressa já vestindo a roupa, pulando por cima dos seus irmãos que dormiam no chão, indo para a bica do lado de fora lavar o rosto.
Sua tia que também já estava de pé se admirou dela ter levantado tão cedo.
- Vou trabalhar, tia – respondeu.
- Mas não é muito cedo? Perguntou sua mãe?
- Dona Ana pediu pra eu ir bem cedinho.
- Mas ainda está escuro – advertiu seu pai – deixa clarear mais. Depois você vai.
- Está bem, pai. Vou só terminar de me arrumar.
Mal podia conter o nervosismo.
Jerônimo saiu para o trabalho, e assim que o dia clareou e já dava para ver a estrada, Dayelle despediu-se de todos e saiu. Tomou a bênção até a tia que raramente fazia.
Já na estrada sentiu um gosto amargo na boca, uma tonteira, uma dor no peito que explodiu em soluços e as lágrimas desceram com facilidade de seus olhos. Mas não dava para voltar a trás. Tinha que continuar. Além do mais, como iria encontrar seu filho se continuasse ali naquela roça onde as pessoas viviam quase sem esperança?
- Pare de chorar, Daye, como se fosse um bebê chorão – falava para si mesma – Você já é uma mulher. Tem que sair de debaixo da sai da mãe e da proteção do pai. Vamos enxugue os olhos – e assim fez – levante a cabeça e siga em frente. Um mundo admirável está a sua frente.
E assim Dayelle fez todo seu caminho passando por alguns conhecidos que a cumprimentavam. Falavam alguma coisa e seguiam. Chegou à rodoviária as 7:10. Faltava muito para o ônibus sair. Torcia para não encontrar nenhum conhecido. Melhor seria esconder-se. Subiu a ladeirinha que dava para a escola. Como era período de férias não corria o risco de ser vista pelos colegas. Atravessou o portão e se escondeu entre o muro e a parede da escola. Sentou num pedaço de meio fio e ficou bem quietinha, respirando com certa dificuldade, com medo de ser descoberta. Tudo estava saindo como planejara. Não tinha com o quê se preocupar. Pensou.
Resolveu ler um pouco para se distrair. As poesias iam deixá-la um pouco relaxada.
Naqueles versos, sua imaginação viajava até ao grande amor de sua vida. Poderia até senti-lo ao seu lado, acariciando seus cabelos, sentindo o toque de suas mãos. Todas as colegas a invejavam. Namorava o garoto mais bonito da escola.
- Ai! – gritou, deixando o livro cair de suas mãos, pulando e sacudindo sua roupa, jogando a mochila no chão.
Uma lagartixa caiu em cima de sua cabeça, tirando-a de seus devaneios.
- É melhor eu ir para a rodoviária – falou consigo mesma – vou acabar perdendo o ônibus. Além do mais não vou conseguir ler com esse bicho nojento perto de mim. Agora deve está faltando pouco para o horário.

Caminhou de volta sempre muito atenta para não ser reconhecida. De longe avistou seu Joaquim e dona Zélia.
- E agora? Melhor dar um tempo aqui.

Esperou que eles entrassem na loja da Margô e rapidamente atravessou a rua e chegou na rodoviária. Foi direto para o banheiro e ficou lá até a moça avisar pelo alto falante que o ônibus para Tupamirim partiria em cinco minutos.

Saiu procurando algum rosto conhecido. Felizmente ninguém. Entregou a passagem ao motorista para a conferência, entrando no ônibus assim que lhe foi devolvida, sentou rapidamente na poltrona treze e enfiou a cara no livro com medo de alguém reconhecê-la.

Esperou até a partida do ônibus, viu quando ia saindo da vila. Então se sentou mais confortavelmente. Lá na frente viu alguém conhecido. Era o Fred amigo de seu irmão Wagner.
- Agora não tem mais problema. – falou com tranqüilidade. – Adeus Vila de Rio Claro!

Deu sorte que era dia de semana e meio de mês. O ônibus estava quase vazio.
Tratou de relaxar e até dormiu um pouco. Acordou quando o ônibus fez sua primeira parada e viu quando o Fred desceu.

Sem medo de ser reconhecida voltou a dormir só despertando em Campos Santos, última parada antes de Tupamirim. Desceu, foi ao banheiro, lavou o rosto, penteou os longos cabelos negros. Eram tão sedosos e brilhantes que parecia que Dayelle vivia em salões de beleza. Bebeu água no bebedouro e voltou para o ônibus, pois já estava de saída.

Chegando em Tupamirim, desceu na rodoviária que parecia mais um sonho. Tudo limpinho, com suas lojas e lanchonetes. Vários aparelhos de tvs e a voz do locutor ao microfone anunciando as saídas dos ônibus. Uma voz grave mais ao mesmo tempo suave. A fez lembrar quando a voz de Marcos começou a engrossar e ela ria dela chamando-o de voz de besouro. Com o passar do tempo a voz foi modificando tomando um tom forte, mas suave também. A última vez que falou com ele foi por telefone. Estava dando faxina na casa de dona Zélia, quando ele ligou para passar um recado à sua mãe. Foi uma conversa rápida, mas foi o suficiente para Dayelle estremecer de alegria ao ouvi-lo. Depois de tanto tempo. Ele disse que estava muito triste por ela ter perdido o bebê e que ele não via a hora de terminar os estudos para reencontrá-la.

E cansada de fazer turismo pela rodoviária decidiu sentar-se para descansar e aproveitou para assistir um pouco de tv.

Depois resolveu explorar a cidade. Caminhou por várias ruas admirando suas magníficas casas com seus jardins muito floridos. As lojas com suas roupas elegantes. E ela que achava que as roupas da loja da Margô eram chiques. Tinha que andar com cuidado, pois os carros passavam por ela em alta velocidade e era um atrás do outro. Não era como em Rio Claro que passava um, depois de alguns instantes passava outro. Na maioria das vezes eram caminhonetes cheias de tranqueiras. Seu Joaquim tinha um carro de verdade: era uma Brasília branca novinha. Os carros de Tupamirim ela nem sabia a marca. Eram carros que ela nunca tinha visto.

E assim, andando por entre ruas e outra se deparou com uma linda mansão totalmente diferente das que tinha visto. Sua arquitetura, sua cor, seu estilo, tudo chamou muito sua atenção. Isso sem falar no jardim com suas flores todas coloridas. Flores de todas as cores e tipos. E para tornar o cenário ainda mais bonito; pequenas árvores bem podadas e outras cujas folhagens se misturavam com suas flores rosas, violetas e amarelas. Plantadas de um lado e outro formando uma passarela, onde se via a entrada principal. E depois de muito admirar, resolver perguntar se precisava de empregada.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

CAPÍTULO 03

NASCE UMA ESPERANÇA



Sentada na praça começou a lembrar de sua vida que deixara para trás. Seus pais, seus irmãos. Sua escola. Talvez nunca mais voltasse a estudar que era o que ela mais gostava de fazer. Também, este seria seu último ano na escola mesmo, pois lá só tinha até a 8ª série.
Como ia continuar? A escola mais perto de lá que tinha 2º grau ficava a 40 minutos de carro, que era Santa Clara. Pensou em Marcos, quando ele foi para lá estudar. Durante a semana ficava na casa de sua tia, irmã de seu pai e só ia em sua casa nos finais de semana. Ia cursar o 1º ano quando engravidou Dayelle e foi mandado para Santa Clara.
E assim envolta com seus pensamentos, recordava de tudo que lhe acontecera. De Marcos, seu grande amor, de seu filho que não teve nem a oportunidade de abraçá-lo.
Que vida triste a sua! Tinha que sair mesmo de casa, pois lá só tinha tristeza e pobreza e passava os dias a pensar em seu filho e no que o doutor Sant’ângelo lhe dissera: “parabéns, Dayelle, É um menino bonito e saudável. Certa vez chegou até comentar com sua mãe a frase do médico, mas sua mãe disse que ela delirou todo o tempo do parto e que o menino nasceu morto. Ela mesma o havia visto. Até foi ao enterro do menino.
- Tira isso da cabeça – falou sua mãe – você não deixa o anjinho descansar em paz. Deixa de bobagens. Daqui a uns tempos você se casa. Terá outros filhos. Lembra da Lili? Ela também perdeu o primeiro filho. Agora tem três e vive perdendo a paciência com eles. De vez em quando escuto ela falar que vai matar um enforcado. Além do mais, você está muito nova pra educar uma criança. Ia sobrar pra mim mesmo.
- Queria tanto ter meu filho nos meus braços, mãe!
Dizia lamentosa.
- Deus sabe o que faz, Daye. Você não fala que quer estudar até se formar pra professora?
- Eu sempre gostei de estudar. A senhora sabe disso.
- Então? Pensa nos estudo e esquece o que passou.
- Se eu pudesse, eu arrancava esta dor do meu peito, mãe.
- Então arranque e pare de choramingar. Seu pai já está começando a se irritar com você.

E assim os dias foram-se passando.
Sua mãe sempre ia a vila comprar mantimentos e numas destas idas Dayelle lhe acompanhou. Tinha muito tempo que não saía de casa. Na pracinha encontrou com sua amiga de escola, a Tiane. Ficou conversando com ela, enquanto sua mãe foi ao posto de saúde conseguir alguns remédios. Seu pai sempre reclamava dores nas costas.
- E aí Daye? Vai continuar os estudos?
Quis saber a amiga.
- Acho que sim.
- Sua mãe vai tomar conta de seu filho?
- Você não soube? Meu filho morreu.
- Morreu? Ai que triste, Daye!
- É! Só eu sei como é triste. - Falou com voz chorosa.
- A Teca falou que ele era tão lindo. Parecia com Marcos.
- Teca?
- É! Minha prima. Aquela que é faxineira no hospital. Ela foi lá em casa e falou que você estava mal, que era bem capaz de não sobreviver. Tinha pena de seu filho, que ia crescer sem mãe.
- Ela disse que viu meu filho?
- Disse. Por que o espanto?
- Meu filho nasceu morto. Minha mãe me disse.
- Como é possível? Minha mãe até comentou que se sua mãe não quisesse o menino, ela tinha coragem de adotá-lo. Só se ele morreu depois.

Dayelle foi às nuvens e voltou. Será que todo mundo havia mentido pra ela? Seu pai chegou a comentar que ia dar o menino, se seu cunhado não ajudasse a criar. Será que ele tinha tido coragem?
Ela já nem ouvia o que a amiga falava. Só pensava na possibilidade de seu filho não estar morto. Mas se não estava morto, Com quem estava? Foi andando em direção ao posto de saúde encontrar com sua mãe, sem se quer despedir da amiga, que ficou falando sozinha. Andava como robô pelas ruas. Quase foi atropelada por uma bicicleta. O rapaz xingou, falou algum palavrão, mas ela nem se deu conta do que estava acontecendo. Estava totalmente envolta nos seus pensamentos. Encontrou com sua mãe no meio do caminho, e voltaram para casa. Fora por todo caminho sem dizer uma palavra. Nem percebeu o peso das sacolas que carregara por mais de quarenta minutos.
Tinha uma esperança de que seu filho não estivesse morto. Se tivesse sido adotado por alguém, ela ia consegui-lo de volta. Mas com quem estava seu filho? Pelo caminho foi fazendo uma lista de pessoas que não tinham filhos, outros que teriam condições de criar o menino, mas não conseguia pensar em ninguém especifico. Sempre achou que tinha alguma coisa que não se encaixava na história de sua mãe.



Em casa não comentou nada com ninguém. Tinha medo que seu pai se irritasse. Mas ela tinha que saber a verdade. Como saber se não perguntasse?
Passaram-se um dia, dois dias. No terceiro tomou uma decisão. Ia perguntar para quem eles deram seu filho. Se ele estava vivo, ia encontrá-lo.
Naquele dia resolveu dar uma trégua para a tristeza. Ajudou na arrumação da casa, lavou roupa, varreu todo o terreiro. Limpava toda sujeira como se estivesse varrendo a própria tristeza de seu coração, para deixar que a semente da esperança brotasse e florescesse, aguardando dias ensolarados e não mais dias cinzentos como dias de fortes tempestades. Esperou que seu pai chegasse da roça. Então após o jantar, tomou coragem e perguntou.
- Quero saber com quem está meu filho.

Falou com tom desafiador. Seu pai a olhou sério, enquanto sua mãe não conseguia esconder o nervosismo, devido à pergunta inesperada.
- Que história é esta, Daye? – falou finalmente sua mãe – está cansada de saber que seu filho está morto.
- Não! Não! Eu sei que ele não morreu. Quando eu estava no hospital a Teca viu ele vivo e bem.
- Seu filho está morto – falou asperamente seu pai.
- Meu filho está vivo, meu pai. Vocês o deram pros outros. O senhor mesmo disse que faria se o tio não ajudasse a criá-lo. Eu quero saber com quem está meu filho.

Dayelle já falava com tom bem alterado, chamando atenção de todos em casa.
- Vocês não tinham o direito de fazer isto comigo. – Falava para seu pai.
- E você tinha o direito de nos envergonhar como nos envergonhou? Causando inimizade entre nossas famílias?
- Eu não estou falando de amizade. Estou falando do meu filho.
- E como é que pretendia sustentá-lo? Lendo versinhos de amor na praça?

Seu pai estava desafiador, enquanto sua mãe tentava acalmar os ânimos.
- Pare com isto, gente! Dayelle, toca a sua vida. Esquece esse menino. Ele vai ser muito bem criado.
- Mãe eu quero meu filho. Só isso.
- Vivemos com tanta dificuldade, filha. Você ia querer que seu filho crescesse nesta pobreza e se tornasse empregado de seu tio como todos da família? Ele não ia dar nada de graça não. Ele não quer nem saber se é neto dele. Marcos foi pra Santa Clara estudar. Se um dia ele voltar, você acha que ele volta pra ficar com você? Não volta, não! Olhe lá se ele não vier de lá casado e com filhos.
- Mãe, pela graça de Deus, me diga pra quem vocês entregaram meu filho.

Seu pai não é de discutir. E não aceita conversar. Resolveu dá um basta.
- Você não é dona do seu nariz. Está sob o meu teto. Come o que eu coloco dentro de casa. Quando estiver fazendo tudo isto sozinha, aí então a gente volta a conversar.
Sem dize mais nada saiu para tomar a fresca, como fazia todas as noites.

Dayelle continuou chorando, querendo saber de seu filho.
- Com quem ele está, mãe? Diga-me, por favor. Eu preciso ver meu filho. Nem que seja uma única vez. – apelava – Não vou tomar ele de volta. Se ele está bem, eu vou deixar ficar. Mas eu preciso vê-lo.
- Eu não sei quem é. Só sei que é família rica. Precisava ver a roupa que a mulher estava usando. De salto alto, toda perfumada. E o carro? Nem sei que carro que era. Só sei que não é nenhum desses que tem aqui.
- Como a senhora encontrou essa mulher? O que estava fazendo? Deve ter parente aqui, senão não vinha para cá. Quem é ela?
- Não sei quem era. Ia trazendo o menino pra casa quando encontrei com eles na praça. Ela gostou muito dele, disse que não tinha filhos. Seu pai não queria que trouxesse o menino. Ia entregar para seu tio. De todo jeito ele ia ser dado mesmo. Contei a mulher toda história e conversei com seu pai, e deixei o menino com ela.
- Eu já tinha até escolhido o nome dele, mãe. Ia ser Márcio. Pra combinar com o nome do pai dele.
- Pare de sofrer, minha filha. Pensa no bem dele. Ele vai ter de tudo. Boas roupas, boas escolas. Não vai ter que aproveitar resto de caderno dos outros como você. Vai ter o que comer. Do jeito que eu vi o casal, seu filho vai ter vida de príncipe. Toca sua vida pra frente. Continue fazendo o que mais gosta, filha. Continue seu estudo, se forma. Aí sim, se casa e tenha seus filhos, e dê a eles uma vida melhor. Não é fácil para uma mãe ver os filhos passando necessidade. Vai amanhã na vila fazer sua matrícula. A diretora perguntou se você vai voltar a estudar e eu disse que sim.

Dayelle ouvia sua mãe sem dizer nada.
- Seu Joaquim da mercearia falou que tem uns cadernos usados pra você. Tem muita folha que dá pra aproveitar.

Nada mais disse naquela noite, nem no dia seguinte, nem dos dias que se seguiram. Mas havia tomado uma decisão. Ia encontrar seu filho. Nem que levasse a vida toda. Ela ia encontrá-lo. Pensava nas palavras de seu pai. Ela ia se sustentar sozinha.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

CAPITULO 02




O DONO DO SUPERMERCADO

Dayelle caminhava pelas ruas da cidade de Tupamirim com uma mochila nas mãos contendo seus pertences: dois pares de roupas, chinelos, escova de dente, pentes e o que ela mais amava: seu livro de poesias de Vinicius de Morais que ganhara de sua professora Marli quando ainda cursava a 5ª série.
Apesar da simplicidade em que estava vestida, chamava a atenção por onde passava. Todos os rapazes olhavam sua beleza rústica, porém tentadora, com seus longos cabelos escorridos até às costas.
Vestia uma calça jeans surrada e sua camiseta azul, desbotada devido ao uso exagerado. Era a sua preferida. Ganhara de Marcos quando brigara na escola com Betinha lamb-lamb e sua camiseta ficou toda rasgada. Foi uma briga pra ninguém botar defeito que acabou com a saída de sua rival da escola. Todos apoiaram Dayelle. Até os professores, pois sempre foi muito educada e estudiosa; amiga de todos.

– Betinha mereceu a surra! Era o que todos diziam.

Marcos foi muito cavalheiro em emprestar sua camiseta. Quando ela foi devolver, lavada e passada, ele lhe disse que era sua como um troféu por ter vencido a babaca da Lamb lamb. Nunca mais ela iria lamber o picolé de ninguém. Os menores, então, viam em Dayelle sua salvadora. Lamb-lamb havia lambido e cuspido no picolé de muitos deles.
Essas imagens iam e vinham nos pensamentos de Dayelle que já estava cansada de andar e faminta. Sentou na praça para descansar.
Vias as pessoas passando de um lado para outro. Todas muito chiques. As mocinhas de sua idade com seus biquínis coloridos, voltando da praia, as babás brincando com as crianças no parquinho.
Carros, cada um mais lindo do que o outro. Os motoqueiros passavam cantando pneus e desapareciam na curva, depois do supermercado Monteiro & Cia.



Revirou sua mochila a procura de algumas moedas para ver se dava para comprar ao menos um biscoito. Contando algumas moedas, foi em direção ao Monteiro & Cia. Sua admiração pela cidade crescia cada vez mais ao avistar aquelas lindas mansões por onde passava.

Ela que durante toda sua vida, na maioria das vezes só via barracos, enormes áreas de capim seco castigado pelo sol. A casa mais bonita que tinha visto era a do seu Joaquim da mercearia que agora parecia tão pobre diante de tanta beleza, com seus jardins todo florido. Não via nenhuma criança de pés descalço. Todas bem vestidinhas. As meninas pareciam bonequinhas de tão lindas.
Chegando ao supermercado, procurou por alguma coisa que suas moedas pudessem pagar. O biscoito mais barato custava Cr$0,99 e ela só tinha Cr$0,90. Pegou o biscoito e resolveu perguntar a moça se podia deixar pelo que ela tinha.

- Moça pode fazer por Cr$0,90 para mim?

O gerente que a observava desde a hora que ela entrou no supermercado, se aproximou e falou:

- Você não é daqui, não é? Não me lembro de você.

- Será que era dono do supermercado? – pensou.

- Cheguei hoje. Vim do interior para tentar arrumar um emprego aqui.

- Hãrrã! Pode cobrar só o R$0,90 dela, Amália – falou o gerente.

- Com certeza era o dono – pensou – tão bem vestido, de gravata e tudo. Fez até o biscoito por menos.




- Vocês têm água para me dá um copo? Perguntou a jovem.

- Temos sim – falou o gerente apontando para o bebedouro em direção ao guarda volumes – é ali. Pode beber a vontade.

Bebeu bastante até saciar a sede de muitas horas, pois só bebera água na última parada que o ônibus fizera. Agradeceu e foi em direção a praça, comendo o biscoito, saboreando cada mordida como se fosse o primeiro que comera em toda sua vida.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

CAPÍTULO 01

UMA DAS SETE MARAVILHAS DO MUNDO

Era por volta do meio dia quando Dayelle chegou em frente ao grande portão de ferro onde por detrás dele se revelava a luxuosa mansão dos Zandelly. Em seu frágil olhar de adolescente de 15 anos, aquele cenário parecia espantoso. Ela que sempre vivera no interior, onde só se via pequenos casebres de barro cru ou madeira. Vivia com sua família em uma paioça de três cômodos, onde tinha que dividir o espaço com nove pessoas: seus pais, uma tia velha, uma prima e mais quatro irmãos. Agora estava diante do que parecia fazer parte das sete maravilhas do mundo. Seus olhos mal podiam crer no que via. Seria possível coisa tão maravilhosa assim? De certo sempre ouvia falar nas casas chiques que tinham as cidades grandes, mas nunca pensou que fossem tão estonteantes. E, essa, diante de seus olhos, superava todas as suas expectativas.
Poderia perguntar se precisava de alguma empregada. Nem que fosse uma faxina em troca do que comer. Saíra de sua casa na noite anterior só com o dinheiro da passagem e até então não havia comido nada.
Pensou consigo – uma mansão como esta com certeza há de ter algum serviço que eu possa fazer. Além do mais se eu não tentar, não vou saber nunca.
E cheia de coragem aproximou-se do portão apertando o rosto contra as grades para ver se via alguém. E gritou para dentro:
- Oh de casa! Oh de casa!
Ficou esperando que aparecesse alguém.
Depois de alguns instantes, gritou novamente. Ninguém apareceu.



Quando estava para desistir, avistou um homem, alto, com ombros largos, parecendo mais artista de novela muito bem vestido atravessando os jardins, vindo em direção ao portão. Naquele momento suas pernas começaram a tremer. Sua boca estava seca e sentiu seu coração bater mais forte. Com certeza era o dono da mansão.
- Em que posso ajudar a senhorita? Perguntou o gentil cavalheiro.
- Bem... - gaguejou Dayelle – estou... prr... – respirou fundo e disse em um único fôlego – estou procurando serviço.
- Sei...
- Pode ser qualquer coisa.
- Terá que voltar mais tarde. Os patrões não estão em casa.
- O que? Então ele não era o dono da mansão? - Pensou. Tão arrumado. Será que era empregado mesmo?
- Sou um dos seguranças da casa. Não posso te ajudar. Volte mais tarde, lá pelas dezoito horas. Então conseguirá falar com eles.
- Está bem, eu voltarei mais tarde.
Foi saindo devagar, enquanto sua imagem ia ficando nos olhos do segurança.
Mesmo sendo uma garota franzina, era muito bonita. Uma morena de cabelos negros e escorridos, com lindos olhos verdes. Apesar da pobreza em que fora criada possuía uma elegância natural no andar, na forma de seu corpo, que fazia com que todos os jovens de seu vilarejo a cobiçassem. Ela que era tão desejada, não tinha olhos para mais ninguém a não ser para seu primo Marcos, que despertara nela o verdadeiro amor, desde sua infância. Sua admiração pelo rapaz começou nas suas idas e vindas à escola. Por ser mais velho, sua tia pediu a ele que tomasse conta da pequena Daye. O que ele fazia com muito carinho. Até que o carinho se tornou amizade, admiração e finalmente amor, por parte de ambos. Isso fez com que mais rapidamente Dayelle perdesse sua inocência, totalmente envolvida pelo rapaz, se entregando ao amor puro e verdadeiro de duas crianças. Isso trouxe conseqüências graves para ambos. Dayelle engravidou. Fato que não foi aceito por sua família nem pela família de Marcos. Os pais de Marcos enviaram-no para a capital para ser doutor em engenharia. Foram brutamente separados.
Dayelle continuou sua gravidez sem nunca ter ido ao médico para saber como estava a criança. Na roça não tem dessas coisas e além do mais, seus pais a mantinha trancada em casa, pois tinham vergonha quando ela era vista em publico e também para evitar falatórios da vizinhança.
Passado o período de gestação, foi levada na madrugada para o hospital da vila por seu tio, pai de Marcos, que deu algum dinheiro para sua mãe, dizendo que nada mais podia fazer por Dayelle.
Mesmo sofrendo as dores do parto, Dayelle só pensava na alegria de abraçar seu filho, fruto de um grande amor, que pra ela, naquele momento seria eterno e não “infinito enquanto dure” como dizia a poesia de seu escritor favorito Vinicius de Morais. Logo, logo teria seu filho nos braços. E entre dores e soluços, pensava no dia em que seria feliz com seu filho e com o grande amor de sua vida. No hospital, numa enfermaria coletiva, aguardava a hora de ser levada para a sala de parto. Dona Luiza, a enfermeira, era uma antiga conhecida sua. Na verdade, como é próprio de lugarejos, todos se conheciam: desde um simples camponês, até as enfermeiras, médicos. Todos eram conhecidos.
Entre fortes dores foi levada para a sala de parto às cinco horas da manhã do dia vinte e dois de dezembro de 1980, onde em alguns minutos, que para a menina pareceram uma eternidade, ela deu a luz. Meio tonta, sem entender o que estava acontecendo, ouviu o médico lhe dizer:
- Parabéns Dayelle. É um menino muito bonito e saudável. E Dayelle desmaiou.
Os dias que se seguiram ela não tinha muita compreensão dos fatos, passando a maior parte do tempo dormindo. No final de dez dias hospitalizada, dando conta de si, foi informada de que seu filho havia morrido. Um grande desespero tomou conta da menina. Não podia acreditar. Seu filho estava morto? Como era possível? Mas o médico disse que ele era saudável. Tudo se dissipou como uma nuvem de fumaça?
Lembrou-se de quando brincava com Marcos de fazer bolhinhas de sabão com canudinhos. Elas surgiam tão bonitas, grandes, para explodirem no ar. Seria isso que aconteceu com seu filho? Nasceu forte e saudável e explodiu no ar como bolha de sabão?


Recebeu alta e voltou para casa. Para Dayelle os dias eram de pura melancolia. Seu pai mal falava com ela. E sua mãe, não dispunha de muito tempo, devido à vida dura da roça. Seus irmãos continuavam seus afazeres. Tudo voltara ao normal. Só a tristeza de Dayelle persistia.
- Talvez quando ela voltar a estudar, ela esquece o que passou – falou dona Almerata quando foi visitá-la. Senhora bondosa e prestativa.
Em suas visitas regulares à menina, sempre levava uma coisinha diferente para que ela comesse. Dayelle sempre dizia que comeria mais tarde e, na maioria das vezes não comia nada.

SÍNTESE DA HISTÓRIA

Dayelle é uma ficção que conta a história de uma adolescente que vivia em uma fazenda chamada Rancho Floresta, de uma cidadezinha do interior, com sua família. Mesmo sendo muito criança se apaixona por seu primo Marcos e vive um grande amor com ele, resultando daí uma gravidez indesejada pelos seus pais e tios. Sendo de família muito pobre, seus pais decidem dar o menino para adoção. No final de vários dias hospitalizada entre a vida e a morte seus pais lhes dizem que seu filho nascera morto. Como toda mentira tem pernas curtas, Dayelle descobre que seu filho está vivo. Ela se revolta com os pais que se recusam a lhe dizer com quem está seu filho e decide ir em busca do menino. Foge de casa para a cidade de Tupamirim onde é recebida pelos Zandelly, uma família evangélica muito rica, que se dispõem a empregá-la e ajudá-la material e espiritualmente. E assim, separada de seu filho e seu grande amor, ela busca conforto nas poesias de seu poeta preferido, Vinicius de Morais. E em um mundo totalmente diferente do seu, muitas surpresas lhe aguarda em sua trajetória na busca de seu filho.


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