Havia se passados quarenta dias desde que Dayelle deu a luz. Seu irmão Wagner voltou da vila trazendo um recado para ela. Dona Zélia, mulher de seu Joaquim da Mercearia mandou chamá-la para ajudar na faxina de sua casa. Dayelle aceitou. Precisava mesmo de dinheiro para o que pretendia fazer. Sua mãe, que não sabia suas intenções, a animou-a:
-Vai mesmo, Daye. Assim você pode comprar uma roupa melhor para ir à escola. Aproveita e faz sua matrícula.
No dia seguinte Dayelle foi. Trabalhou o dia todo, Recebeu dez Cruzeiros. Iria guardar o dinheiro não para comprar roupas, mas para ir para a cidade grande trabalhar. Antes de ir embora, seu Joaquim perguntou se ela podia voltar para arear as mesinhas de bar.
-Posso sim. Estão mesmo precisando de uma boa limpeza.
-Então está certo – disse seu Joaquim – pode ser amanhã?
-Claro! Amanhã às sete horas estarei aqui.
-Melhor as oito – corrigiu seu Joaquim.
-Então, até amanhã, às oito.
Despediu-se e foi em direção a rodoviária. Precisava saber o valor da passagem para a cidade de Tupamirim. Em poucos dias ia deixar para trás a vila de Rio Claro e provavelmente não retornaria a fazenda do Rancho Floresta. Só ficaria até conseguir o dinheiro.
Trabalhou no dia seguinte. Fez outras faxinas em outras casas e conseguiu juntar o dinheiro para o que queria. Até mais que precisava.
Na última faxina que fez, comprou a passagem. Lembrou que sua mãe reclamou que estava sem açúcar e quase sem óleo. Comprou no seu Joaquim o que faltava com o resto do dinheiro que sobrara e foi para casa, pensando como ia fazer para fugir.
Apanhou sua mochila que ganhara de Dona Almerata e nela colocou seus pertences. Pouca coisa para ninguém desconfiar. Começou a tramar o que ia dizer aos seus pais, para não suspeitarem de nada. Tinha que ser um bom plano, pois queria que, quando eles percebessem que ela tinha fugido, já estivesse longe. Assim ia ficar difícil encontrá-la. Tupamirim é muito grande.
Tinha comprado passagem para a 8:15. Pensou, pensou e teve uma idéia.
-Mãe, vou amanhã trabalhar com dona Ana salgadeira.
-Mas você não sabe fazer salgado.
- Eu vou aprender. Ela sempre precisa de alguém pra ajudar mesmo.
- E a Helô e Madalena? Elas não trabalham mais pra ela?
Estava ficando difícil mais tinha que continuar a farsa.
- Elas vão também. São dez mil salgados.
- Tanto assim? Quem é que vai dá esta festa?
- Ainda não sei. E ela pediu pra levar uma roupa, pois vamos trabalhar até tarde e vai ficar difícil voltar. E se não darmos conta, vamos continuar no outro dia.
- O que você acha, Jerônimo? Perguntou ao marido que ouvia tudo calado.
- A salgadeira é mulé direita. É bom ela ir. Melhor do que ficar em casa pensando bobagem. Mente desocupada é oficina de satanás.
- Está certo, você vai; mas olha o comportamento. Não quero ouvir falar que ficou pela rua com aquela Tiane.
- Nem se eu quisesse não ia dá, mãe; são dez mil salgados. Eu preciso de dinheiro para comprar um tênis. Hoje eu já gastei do que tinha para comprar açúcar e óleo.
- Dá um jeito de avisar se for ficar até depois de amanhã.
Ufa! Que alívio. O primeiro passo tinha sido dado. Agora era torcer para que ninguém conhecido a visse embarcar.
Naquela noite deitou cedo, mas não conseguia dormir. A ansiedade tomou conta e parecia que o dia não ia chegar nunca. Virava para um lado, virava para outro. Foi a cozinha, tomou água e nada do dia clarear. Voltou para a cama e vencida pelo cansaço, acabou adormecendo. Acordou com o cheiro do café que sua mãe preparava par seu pai levar para a roça.
Levantou-se depressa já vestindo a roupa, pulando por cima dos seus irmãos que dormiam no chão, indo para a bica do lado de fora lavar o rosto.
Sua tia que também já estava de pé se admirou dela ter levantado tão cedo.
- Vou trabalhar, tia – respondeu.
- Mas não é muito cedo? Perguntou sua mãe?
- Dona Ana pediu pra eu ir bem cedinho.
- Mas ainda está escuro – advertiu seu pai – deixa clarear mais. Depois você vai.
- Está bem, pai. Vou só terminar de me arrumar.
Mal podia conter o nervosismo.
Jerônimo saiu para o trabalho, e assim que o dia clareou e já dava para ver a estrada, Dayelle despediu-se de todos e saiu. Tomou a bênção até a tia que raramente fazia.
Já na estrada sentiu um gosto amargo na boca, uma tonteira, uma dor no peito que explodiu em soluços e as lágrimas desceram com facilidade de seus olhos. Mas não dava para voltar a trás. Tinha que continuar. Além do mais, como iria encontrar seu filho se continuasse ali naquela roça onde as pessoas viviam quase sem esperança?
- Pare de chorar, Daye, como se fosse um bebê chorão – falava para si mesma – Você já é uma mulher. Tem que sair de debaixo da sai da mãe e da proteção do pai. Vamos enxugue os olhos – e assim fez – levante a cabeça e siga em frente. Um mundo admirável está a sua frente.
E assim Dayelle fez todo seu caminho passando por alguns conhecidos que a cumprimentavam. Falavam alguma coisa e seguiam. Chegou à rodoviária as 7:10. Faltava muito para o ônibus sair. Torcia para não encontrar nenhum conhecido. Melhor seria esconder-se. Subiu a ladeirinha que dava para a escola. Como era período de férias não corria o risco de ser vista pelos colegas. Atravessou o portão e se escondeu entre o muro e a parede da escola. Sentou num pedaço de meio fio e ficou bem quietinha, respirando com certa dificuldade, com medo de ser descoberta. Tudo estava saindo como planejara. Não tinha com o quê se preocupar. Pensou.
Resolveu ler um pouco para se distrair. As poesias iam deixá-la um pouco relaxada.
Naqueles versos, sua imaginação viajava até ao grande amor de sua vida. Poderia até senti-lo ao seu lado, acariciando seus cabelos, sentindo o toque de suas mãos. Todas as colegas a invejavam. Namorava o garoto mais bonito da escola.
- Ai! – gritou, deixando o livro cair de suas mãos, pulando e sacudindo sua roupa, jogando a mochila no chão.
Uma lagartixa caiu em cima de sua cabeça, tirando-a de seus devaneios.
- É melhor eu ir para a rodoviária – falou consigo mesma – vou acabar perdendo o ônibus. Além do mais não vou conseguir ler com esse bicho nojento perto de mim. Agora deve está faltando pouco para o horário.
Caminhou de volta sempre muito atenta para não ser reconhecida. De longe avistou seu Joaquim e dona Zélia.
- E agora? Melhor dar um tempo aqui.
Esperou que eles entrassem na loja da Margô e rapidamente atravessou a rua e chegou na rodoviária. Foi direto para o banheiro e ficou lá até a moça avisar pelo alto falante que o ônibus para Tupamirim partiria em cinco minutos.
Saiu procurando algum rosto conhecido. Felizmente ninguém. Entregou a passagem ao motorista para a conferência, entrando no ônibus assim que lhe foi devolvida, sentou rapidamente na poltrona treze e enfiou a cara no livro com medo de alguém reconhecê-la.
Esperou até a partida do ônibus, viu quando ia saindo da vila. Então se sentou mais confortavelmente. Lá na frente viu alguém conhecido. Era o Fred amigo de seu irmão Wagner.
- Agora não tem mais problema. – falou com tranqüilidade. – Adeus Vila de Rio Claro!
Deu sorte que era dia de semana e meio de mês. O ônibus estava quase vazio.
Tratou de relaxar e até dormiu um pouco. Acordou quando o ônibus fez sua primeira parada e viu quando o Fred desceu.
Chegando em Tupamirim, desceu na rodoviária que parecia mais um sonho. Tudo limpinho, com suas lojas e lanchonetes. Vários aparelhos de tvs e a voz do locutor ao microfone anunciando as saídas dos ônibus. Uma voz grave mais ao mesmo tempo suave. A fez lembrar quando a voz de Marcos começou a engrossar e ela ria dela chamando-o de voz de besouro. Com o passar do tempo a voz foi modificando tomando um tom forte, mas suave também. A última vez que falou com ele foi por telefone. Estava dando faxina na casa de dona Zélia, quando ele ligou para passar um recado à sua mãe. Foi uma conversa rápida, mas foi o suficiente para Dayelle estremecer de alegria ao ouvi-lo. Depois de tanto tempo. Ele disse que estava muito triste por ela ter perdido o bebê e que ele não via a hora de terminar os estudos para reencontrá-la.
E cansada de fazer turismo pela rodoviária decidiu sentar-se para descansar e aproveitou para assistir um pouco de tv.
Depois resolveu explorar a cidade. Caminhou por várias ruas admirando suas magníficas casas com seus jardins muito floridos. As lojas com suas roupas elegantes. E ela que achava que as roupas da loja da Margô eram chiques. Tinha que andar com cuidado, pois os carros passavam por ela em alta velocidade e era um atrás do outro. Não era como em Rio Claro que passava um, depois de alguns instantes passava outro. Na maioria das vezes eram caminhonetes cheias de tranqueiras. Seu Joaquim tinha um carro de verdade: era uma Brasília branca novinha. Os carros de Tupamirim ela nem sabia a marca. Eram carros que ela nunca tinha visto.
E assim, andando por entre ruas e outra se deparou com uma linda mansão totalmente diferente das que tinha visto. Sua arquitetura, sua cor, seu estilo, tudo chamou muito sua atenção. Isso sem falar no jardim com suas flores todas coloridas. Flores de todas as cores e tipos. E para tornar o cenário ainda mais bonito; pequenas árvores bem podadas e outras cujas folhagens se misturavam com suas flores rosas, violetas e amarelas. Plantadas de um lado e outro formando uma passarela, onde se via a entrada principal. E depois de muito admirar, resolver perguntar se precisava de empregada.
