UMA DAS SETE MARAVILHAS DO MUNDO
Era por volta do meio dia quando Dayelle chegou em frente ao grande portão de ferro onde por detrás dele se revelava a luxuosa mansão dos Zandelly. Em seu frágil olhar de adolescente de 15 anos, aquele cenário parecia espantoso. Ela que sempre vivera no interior, onde só se via pequenos casebres de barro cru ou madeira. Vivia com sua família em uma paioça de três cômodos, onde tinha que dividir o espaço com nove pessoas: seus pais, uma tia velha, uma prima e mais quatro irmãos. Agora estava diante do que parecia fazer parte das sete maravilhas do mundo. Seus olhos mal podiam crer no que via. Seria possível coisa tão maravilhosa assim? De certo sempre ouvia falar nas casas chiques que tinham as cidades grandes, mas nunca pensou que fossem tão estonteantes. E, essa, diante de seus olhos, superava todas as suas expectativas.
Poderia perguntar se precisava de alguma empregada. Nem que fosse uma faxina em troca do que comer. Saíra de sua casa na noite anterior só com o dinheiro da passagem e até então não havia comido nada.
Pensou consigo – uma mansão como esta com certeza há de ter algum serviço que eu possa fazer. Além do mais se eu não tentar, não vou saber nunca.
E cheia de coragem aproximou-se do portão apertando o rosto contra as grades para ver se via alguém. E gritou para dentro:
- Oh de casa! Oh de casa!
Ficou esperando que aparecesse alguém.
Quando estava para desistir, avistou um homem, alto, com ombros largos, parecendo mais artista de novela muito bem vestido atravessando os jardins, vindo em direção ao portão. Naquele momento suas pernas começaram a tremer. Sua boca estava seca e sentiu seu coração bater mais forte. Com certeza era o dono da mansão.
- Em que posso ajudar a senhorita? Perguntou o gentil cavalheiro.
- Bem... - gaguejou Dayelle – estou... prr... – respirou fundo e disse em um único fôlego – estou procurando serviço.
- Sei...
- Pode ser qualquer coisa.
- Terá que voltar mais tarde. Os patrões não estão em casa.
- O que? Então ele não era o dono da mansão? - Pensou. Tão arrumado. Será que era empregado mesmo?
- Sou um dos seguranças da casa. Não posso te ajudar. Volte mais tarde, lá pelas dezoito horas. Então conseguirá falar com eles.
- Está bem, eu voltarei mais tarde.
Foi saindo devagar, enquanto sua imagem ia ficando nos olhos do segurança.
Mesmo sendo uma garota franzina, era muito bonita. Uma morena de cabelos negros e escorridos, com lindos olhos verdes. Apesar da pobreza em que fora criada possuía uma elegância natural no andar, na forma de seu corpo, que fazia com que todos os jovens de seu vilarejo a cobiçassem. Ela que era tão desejada, não tinha olhos para mais ninguém a não ser para seu primo Marcos, que despertara nela o verdadeiro amor, desde sua infância. Sua admiração pelo rapaz começou nas suas idas e vindas à escola. Por ser mais velho, sua tia pediu a ele que tomasse conta da pequena Daye. O que ele fazia com muito carinho. Até que o carinho se tornou amizade, admiração e finalmente amor, por parte de ambos. Isso fez com que mais rapidamente Dayelle perdesse sua inocência, totalmente envolvida pelo rapaz, se entregando ao amor puro e verdadeiro de duas crianças. Isso trouxe conseqüências graves para ambos. Dayelle engravidou. Fato que não foi aceito por sua família nem pela família de Marcos. Os pais de Marcos enviaram-no para a capital para ser doutor em engenharia. Foram brutamente separados.
Dayelle continuou sua gravidez sem nunca ter ido ao médico para saber como estava a criança. Na roça não tem dessas coisas e além do mais, seus pais a mantinha trancada em casa, pois tinham vergonha quando ela era vista em publico e também para evitar falatórios da vizinhança.
Passado o período de gestação, foi levada na madrugada para o hospital da vila por seu tio, pai de Marcos, que deu algum dinheiro para sua mãe, dizendo que nada mais podia fazer por Dayelle.
Mesmo sofrendo as dores do parto, Dayelle só pensava na alegria de abraçar seu filho, fruto de um grande amor, que pra ela, naquele momento seria eterno e não “infinito enquanto dure” como dizia a poesia de seu escritor favorito Vinicius de Morais. Logo, logo teria seu filho nos braços. E entre dores e soluços, pensava no dia em que seria feliz com seu filho e com o grande amor de sua vida. No hospital, numa enfermaria coletiva, aguardava a hora de ser levada para a sala de parto. Dona Luiza, a enfermeira, era uma antiga conhecida sua. Na verdade, como é próprio de lugarejos, todos se conheciam: desde um simples camponês, até as enfermeiras, médicos. Todos eram conhecidos.
Entre fortes dores foi levada para a sala de parto às cinco horas da manhã do dia vinte e dois de dezembro de 1980, onde em alguns minutos, que para a menina pareceram uma eternidade, ela deu a luz. Meio tonta, sem entender o que estava acontecendo, ouviu o médico lhe dizer:
- Parabéns Dayelle. É um menino muito bonito e saudável. E Dayelle desmaiou.
Os dias que se seguiram ela não tinha muita compreensão dos fatos, passando a maior parte do tempo dormindo. No final de dez dias hospitalizada, dando conta de si, foi informada de que seu filho havia morrido. Um grande desespero tomou conta da menina. Não podia acreditar. Seu filho estava morto? Como era possível? Mas o médico disse que ele era saudável. Tudo se dissipou como uma nuvem de fumaça?
Lembrou-se de quando brincava com Marcos de fazer bolhinhas de sabão com canudinhos. Elas surgiam tão bonitas, grandes, para explodirem no ar. Seria isso que aconteceu com seu filho? Nasceu forte e saudável e explodiu no ar como bolha de sabão?
Recebeu alta e voltou para casa. Para Dayelle os dias eram de pura melancolia. Seu pai mal falava com ela. E sua mãe, não dispunha de muito tempo, devido à vida dura da roça. Seus irmãos continuavam seus afazeres. Tudo voltara ao normal. Só a tristeza de Dayelle persistia.
- Talvez quando ela voltar a estudar, ela esquece o que passou – falou dona Almerata quando foi visitá-la. Senhora bondosa e prestativa.
Em suas visitas regulares à menina, sempre levava uma coisinha diferente para que ela comesse. Dayelle sempre dizia que comeria mais tarde e, na maioria das vezes não comia nada.

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