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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

CAPÍTULO 03

NASCE UMA ESPERANÇA



Sentada na praça começou a lembrar de sua vida que deixara para trás. Seus pais, seus irmãos. Sua escola. Talvez nunca mais voltasse a estudar que era o que ela mais gostava de fazer. Também, este seria seu último ano na escola mesmo, pois lá só tinha até a 8ª série.
Como ia continuar? A escola mais perto de lá que tinha 2º grau ficava a 40 minutos de carro, que era Santa Clara. Pensou em Marcos, quando ele foi para lá estudar. Durante a semana ficava na casa de sua tia, irmã de seu pai e só ia em sua casa nos finais de semana. Ia cursar o 1º ano quando engravidou Dayelle e foi mandado para Santa Clara.
E assim envolta com seus pensamentos, recordava de tudo que lhe acontecera. De Marcos, seu grande amor, de seu filho que não teve nem a oportunidade de abraçá-lo.
Que vida triste a sua! Tinha que sair mesmo de casa, pois lá só tinha tristeza e pobreza e passava os dias a pensar em seu filho e no que o doutor Sant’ângelo lhe dissera: “parabéns, Dayelle, É um menino bonito e saudável. Certa vez chegou até comentar com sua mãe a frase do médico, mas sua mãe disse que ela delirou todo o tempo do parto e que o menino nasceu morto. Ela mesma o havia visto. Até foi ao enterro do menino.
- Tira isso da cabeça – falou sua mãe – você não deixa o anjinho descansar em paz. Deixa de bobagens. Daqui a uns tempos você se casa. Terá outros filhos. Lembra da Lili? Ela também perdeu o primeiro filho. Agora tem três e vive perdendo a paciência com eles. De vez em quando escuto ela falar que vai matar um enforcado. Além do mais, você está muito nova pra educar uma criança. Ia sobrar pra mim mesmo.
- Queria tanto ter meu filho nos meus braços, mãe!
Dizia lamentosa.
- Deus sabe o que faz, Daye. Você não fala que quer estudar até se formar pra professora?
- Eu sempre gostei de estudar. A senhora sabe disso.
- Então? Pensa nos estudo e esquece o que passou.
- Se eu pudesse, eu arrancava esta dor do meu peito, mãe.
- Então arranque e pare de choramingar. Seu pai já está começando a se irritar com você.

E assim os dias foram-se passando.
Sua mãe sempre ia a vila comprar mantimentos e numas destas idas Dayelle lhe acompanhou. Tinha muito tempo que não saía de casa. Na pracinha encontrou com sua amiga de escola, a Tiane. Ficou conversando com ela, enquanto sua mãe foi ao posto de saúde conseguir alguns remédios. Seu pai sempre reclamava dores nas costas.
- E aí Daye? Vai continuar os estudos?
Quis saber a amiga.
- Acho que sim.
- Sua mãe vai tomar conta de seu filho?
- Você não soube? Meu filho morreu.
- Morreu? Ai que triste, Daye!
- É! Só eu sei como é triste. - Falou com voz chorosa.
- A Teca falou que ele era tão lindo. Parecia com Marcos.
- Teca?
- É! Minha prima. Aquela que é faxineira no hospital. Ela foi lá em casa e falou que você estava mal, que era bem capaz de não sobreviver. Tinha pena de seu filho, que ia crescer sem mãe.
- Ela disse que viu meu filho?
- Disse. Por que o espanto?
- Meu filho nasceu morto. Minha mãe me disse.
- Como é possível? Minha mãe até comentou que se sua mãe não quisesse o menino, ela tinha coragem de adotá-lo. Só se ele morreu depois.

Dayelle foi às nuvens e voltou. Será que todo mundo havia mentido pra ela? Seu pai chegou a comentar que ia dar o menino, se seu cunhado não ajudasse a criar. Será que ele tinha tido coragem?
Ela já nem ouvia o que a amiga falava. Só pensava na possibilidade de seu filho não estar morto. Mas se não estava morto, Com quem estava? Foi andando em direção ao posto de saúde encontrar com sua mãe, sem se quer despedir da amiga, que ficou falando sozinha. Andava como robô pelas ruas. Quase foi atropelada por uma bicicleta. O rapaz xingou, falou algum palavrão, mas ela nem se deu conta do que estava acontecendo. Estava totalmente envolta nos seus pensamentos. Encontrou com sua mãe no meio do caminho, e voltaram para casa. Fora por todo caminho sem dizer uma palavra. Nem percebeu o peso das sacolas que carregara por mais de quarenta minutos.
Tinha uma esperança de que seu filho não estivesse morto. Se tivesse sido adotado por alguém, ela ia consegui-lo de volta. Mas com quem estava seu filho? Pelo caminho foi fazendo uma lista de pessoas que não tinham filhos, outros que teriam condições de criar o menino, mas não conseguia pensar em ninguém especifico. Sempre achou que tinha alguma coisa que não se encaixava na história de sua mãe.



Em casa não comentou nada com ninguém. Tinha medo que seu pai se irritasse. Mas ela tinha que saber a verdade. Como saber se não perguntasse?
Passaram-se um dia, dois dias. No terceiro tomou uma decisão. Ia perguntar para quem eles deram seu filho. Se ele estava vivo, ia encontrá-lo.
Naquele dia resolveu dar uma trégua para a tristeza. Ajudou na arrumação da casa, lavou roupa, varreu todo o terreiro. Limpava toda sujeira como se estivesse varrendo a própria tristeza de seu coração, para deixar que a semente da esperança brotasse e florescesse, aguardando dias ensolarados e não mais dias cinzentos como dias de fortes tempestades. Esperou que seu pai chegasse da roça. Então após o jantar, tomou coragem e perguntou.
- Quero saber com quem está meu filho.

Falou com tom desafiador. Seu pai a olhou sério, enquanto sua mãe não conseguia esconder o nervosismo, devido à pergunta inesperada.
- Que história é esta, Daye? – falou finalmente sua mãe – está cansada de saber que seu filho está morto.
- Não! Não! Eu sei que ele não morreu. Quando eu estava no hospital a Teca viu ele vivo e bem.
- Seu filho está morto – falou asperamente seu pai.
- Meu filho está vivo, meu pai. Vocês o deram pros outros. O senhor mesmo disse que faria se o tio não ajudasse a criá-lo. Eu quero saber com quem está meu filho.

Dayelle já falava com tom bem alterado, chamando atenção de todos em casa.
- Vocês não tinham o direito de fazer isto comigo. – Falava para seu pai.
- E você tinha o direito de nos envergonhar como nos envergonhou? Causando inimizade entre nossas famílias?
- Eu não estou falando de amizade. Estou falando do meu filho.
- E como é que pretendia sustentá-lo? Lendo versinhos de amor na praça?

Seu pai estava desafiador, enquanto sua mãe tentava acalmar os ânimos.
- Pare com isto, gente! Dayelle, toca a sua vida. Esquece esse menino. Ele vai ser muito bem criado.
- Mãe eu quero meu filho. Só isso.
- Vivemos com tanta dificuldade, filha. Você ia querer que seu filho crescesse nesta pobreza e se tornasse empregado de seu tio como todos da família? Ele não ia dar nada de graça não. Ele não quer nem saber se é neto dele. Marcos foi pra Santa Clara estudar. Se um dia ele voltar, você acha que ele volta pra ficar com você? Não volta, não! Olhe lá se ele não vier de lá casado e com filhos.
- Mãe, pela graça de Deus, me diga pra quem vocês entregaram meu filho.

Seu pai não é de discutir. E não aceita conversar. Resolveu dá um basta.
- Você não é dona do seu nariz. Está sob o meu teto. Come o que eu coloco dentro de casa. Quando estiver fazendo tudo isto sozinha, aí então a gente volta a conversar.
Sem dize mais nada saiu para tomar a fresca, como fazia todas as noites.

Dayelle continuou chorando, querendo saber de seu filho.
- Com quem ele está, mãe? Diga-me, por favor. Eu preciso ver meu filho. Nem que seja uma única vez. – apelava – Não vou tomar ele de volta. Se ele está bem, eu vou deixar ficar. Mas eu preciso vê-lo.
- Eu não sei quem é. Só sei que é família rica. Precisava ver a roupa que a mulher estava usando. De salto alto, toda perfumada. E o carro? Nem sei que carro que era. Só sei que não é nenhum desses que tem aqui.
- Como a senhora encontrou essa mulher? O que estava fazendo? Deve ter parente aqui, senão não vinha para cá. Quem é ela?
- Não sei quem era. Ia trazendo o menino pra casa quando encontrei com eles na praça. Ela gostou muito dele, disse que não tinha filhos. Seu pai não queria que trouxesse o menino. Ia entregar para seu tio. De todo jeito ele ia ser dado mesmo. Contei a mulher toda história e conversei com seu pai, e deixei o menino com ela.
- Eu já tinha até escolhido o nome dele, mãe. Ia ser Márcio. Pra combinar com o nome do pai dele.
- Pare de sofrer, minha filha. Pensa no bem dele. Ele vai ter de tudo. Boas roupas, boas escolas. Não vai ter que aproveitar resto de caderno dos outros como você. Vai ter o que comer. Do jeito que eu vi o casal, seu filho vai ter vida de príncipe. Toca sua vida pra frente. Continue fazendo o que mais gosta, filha. Continue seu estudo, se forma. Aí sim, se casa e tenha seus filhos, e dê a eles uma vida melhor. Não é fácil para uma mãe ver os filhos passando necessidade. Vai amanhã na vila fazer sua matrícula. A diretora perguntou se você vai voltar a estudar e eu disse que sim.

Dayelle ouvia sua mãe sem dizer nada.
- Seu Joaquim da mercearia falou que tem uns cadernos usados pra você. Tem muita folha que dá pra aproveitar.

Nada mais disse naquela noite, nem no dia seguinte, nem dos dias que se seguiram. Mas havia tomado uma decisão. Ia encontrar seu filho. Nem que levasse a vida toda. Ela ia encontrá-lo. Pensava nas palavras de seu pai. Ela ia se sustentar sozinha.

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