CONHECENDO OS PATRÕES
Dayelle já não agüentava de tanta curiosidade de saber quem era os Zandelly. Os empregados falavam tão bem deles que ela já os admirava mesmo antes de conhecê-los. Na sexta feira, quando caminhava próximo à piscina por volta das cinco horas da tarde, Mirian foi lhe falar que os patrões haviam chegado e que Rita e Pedro estavam conversando com eles a seu respeito.
Dayelle sentiu o coração bater mais rápido. Estava ansiosa por conhecê-los e saber se lhes dariam uma oportunidade de emprego. Mas foi advertida por Mirian que só deveria ir quando fosse chamada. Teria que guardar sua ansiedade por mais alguns instantes.
Pedro e Rita conversaram com os doutores, disseram como Dayelle apareceu pela primeira vez, de onde veio, que Pedro a buscou tarde da noite quando estava dormindo na porta do Monteiro & Cia e como trabalhou com eles durante todos aqueles dias. Vendo que os corações dos patrões estavam tomados pela sensibilidade Rita deu a cartada final contando para eles toda história de Dayelle, de como seu filho lhe fora tirado e a esperança que ela tinha de encontrá-lo. Doutora Késsia se comoveu tanto que teve de segurar para não chorar. Doutor Rafael mandou chamar a menina, dizendo que eles fizeram muito bem em recebê-la e que, com certeza, iria tentar fazer algo por ela.
Pedro foi chamá-la e em seguida a menina foi introduzida na sala. Dayelle se admirou da juventude de ambos. Sempre que pensava neles, os imaginava velhos como seus pais. Se bem que seus pais não eram tão velhos, mas tinham os corpos castigados devido ao trabalho na roça. Estava diante de um homem alto, claro, cabelo castanho claro e aparentando quarenta anos e uma linda mulher que aparentava a mesma idade, mas morena, de cabelos escuros, cortado curto.
Rafael a fitou por alguns instantes em silêncio. Dayelle abaixou a cabeça. Não sabia o que fazer ou dizer.
- Não! – falou finalmente Rafael – quero ver seus olhos.
Dayelle levantou a cabeça, olhou rapidamente para ele, desviando o olhar em seguida. Estava muito embaraçada.
- Gosto de olhar nos olhos quando converso com alguém, Dayelle. Por favor, olhe para mim.
- Sim senhor. Desculpa.
- Não é necessário pedir desculpas. Não estou zangado.
- Obrigada, senhor.
Ali, naquele primeiro contato, Rafael percebeu que estava diante de uma pessoa extremamente educada. Simples, mas educada e continuou.
- Já estou sabendo de sua história. Pedro e Rita me colocaram a par do assunto. Mas eu quero saber de você. O que quer de nós?
- Quero um emprego, doutor. – falou decidida – Preciso arrumar dinheiro para ir atrás de meu filho que me tiraram.
- Certo! Estou disposto a te ajudar, mas você vai me ajudar primeiro.
- Como?
- Você vai me levar até sua cidade, na casa de seus pais.
Dayelle gelou. Havia fugido de casa. Como iria voltar sem sofrer uma punição? Conhecia seu pai muito bem e sabia que sua fuga não ia passar em branco.
- Doutor, eu não posso voltar lá.
- Então eu não posso te ajudar.
- O Senhor não entende.
- Entendo sim. Entendo que você é menor de idade, fugiu de casa e se eu te receber em minha casa de qualquer maneira, as coisas vão se complicar para mim.
- Não se preocupe, Dayelle – falou Késsia, encorajando a menina - Do que você tem medo?
- A senhora não conhece meu pai. Temo só em pensar.
- Mas não podemos ficar com você sem o consentimento deles. Tem que entender o nosso lado. Se seus pais forem à polícia, a coisa se complica para nós.
- E se meu pai me segurar lá? Não me deixar voltar?
- É um risco que terá de correr. – falou Rafael.
- Se o senhor fosse meu pai, me deixaria voltar.
- De jeito nenhum! E te daria surras de acordo com os dias que passou fora de casa. Se fossem cinco, levaria cinco surras. Se fossem vinte, vinte surras. Até a minha angústia passar. E com certeza teria mais castigos.
Dayelle engoliu seco diante da resposta áspera de Rafael. Cadê aquele homem bondoso que diziam que era? Diante da resposta, chegou até a achá-lo parecido com seu pai.
- Dayelle, precisamos conversar com seus pais. - falou Késsia – A coisa não pode ser feita assim de qualquer maneira.
- E se eu der o endereço? É fácil de encontrar. Todo mundo na vila conhece meu pai. Deixe-me ficar, por favor!
- Sem chance Dayelle – falou Rafael.
Ficaram em silêncio por alguns instantes. Dayelle se viu contra a parede. O silêncio foi interrompido por Rafael.
- Vamos fazer o seguinte: você pensa até depois do jantar e então voltamos a conversar.
- E se eu não concordar? – quis saber Dayelle.
- É simples! Esta situação será resolvida até amanhã. Ou te levo a sua casa e converso com seus pais, ou te levo para o juizado de menores.
- Quer dizer, doutor, que, se correr o bicho pega, se parar o bicho come?
- Você entende rápido – falou ironicamente Rafael – A decisão é sua, gatinha.
Rafael se retirou da sala.
- É preciso ter coragem para fazer a coisa certa – Aconselhou Késsia e se retirou também, acompanhando o marido.
- Então, Dayelle, tudo certo? – perguntou Rita.
- Não tem nada certo.
Respondeu sem parar e foi para o quarto das empregadas. Odiou Rafael. Chegou ao quarto, juntou todos os seus pertences e estava decidida a voltar para as ruas. Ia tentar conseguir emprego com outras pessoas.
- Bom, bom, generoso. – falou sozinha – não sei onde viram generosidades neste homem. Ele é muito arrogante, isto sim. Vou sair daqui é agora.
Colocou a mochila nas costas e foi em direção a garagem. Pensou em dar satisfação a Rita. Ela, sim, tinha sido bondosa com ela. Mas mudou de idéia. Não queria correr o risco de encontrar os doutores. Pedro e Diogo estavam na garagem. Melhor assim. Agradeceria ao Pedro e pediria a ele para agradecer Rita. Pedro falou antes dela.
- O que aconteceu, Dayelle? Aonde você vai?
- Vou embora, Pedro. Desculpa o trabalho que dei a vocês.
- Calma, Daye. O que deu errado? Doutor Rafael te mandou embora?
- Não, claro que não. Ele é muito bondoso para fazer isto – falou com ironia – Me mandoueu escolher entre voltar para casa ou ir para o juizado de menores.
- Eu não posso deixar você ir sem falar com o doutor. Vá chamar o doutor, Diogo. – Diogo obedeceu e saiu.
- Eu não quero falar com ninguém – Dayelle estava desesperada - Pedro, por favor, abra o portão.
- Calma Dayelle - Pedia Pedro.
- Eu estou calma. Só quero sair.
- Deixa só o doutor chegar aqui.
- Eu quero sair. Em nome de Deus, Pedro, deixa-me ir. – As lágrimas já corriam em sua face.
- Eu não posso deixar você ir Daye. Não faz assim.
Késsia chegou para ver o que estava acontecendo e viu Dayelle chorando com a mochila nas mãos.
- O que aconteceu Dayelle?
- Quer ir embora por toda lei, doutora, - falou Pedro.
- Você vai para onde Dayelle? – perguntou Késsia.
- Eu não sei. – respondeu chorando – Só não vou voltar para casa.
Rafael chegou em meio à discussão e falou:
- Não quer receber primeiro, Dayelle? Afinal de contas você trabalhou.
Dayelle não respondeu. Só chorou. Rafael continuou.
- Bom, deixa-me ver... Trabalhou três dias. Três ou quatro?
Dayelle não respondeu. Rafael tirou uma nota de cinqüenta Cruzeiros e deu a ela.
- Isto deve pagar.
Pegou o dinheiro, mas continuou de cabeça baixa, chorando.
- Vai deixá-la ir, querido? – perguntou Késsia ao marido.
- O que você quer que eu faça? Ela tomou a decisão... Ela é rápida para decidir. E olha que eu nem dei esta opção a ela. Ela tinha que escolher entre duas... Ela criou uma terceira.
- O bicho quando é acuado ele encontra uma direção doutor. – falou Dayelle.
- Bicho esperto não. Ele olha nos olhos de seu adversário e o domina quando se sente ameaçado e ataca primeiro vencendo o combate.
- É o que estou fazendo ao ir embora.
- Será?... Se acredita nisso, a estrada está a sua frente. Mas tome cuidado. No interior de onde veio tem bicho papão que amedronta as criancinhas. Aqui ele não amedronta; ele “papa” as mocinhas.
Dessa vez Dayelle só ouviu Lembrou-se do medo que sentiu quanto estava na rua.
- Mas já que tomou sua decisão... – continuou Rafael – Agora só me resta jantar.
Rafael virou as costas e saiu, enquanto os demais ficaram tentando convencê-la.
- Dayelle, eu sei que está com medo – falou Késsia – Mas pensa bem.
- Doutora, eu já pensei e é por isso que não posso voltar para casa. Se eu voltar, eu posso perder as esperanças de encontrar meu filho.
- Então, menina? É a chance de encontrar seu filho que queremos te dar. Não se preocupe. Saberemos conversar com seu pai e o convenceremos a deixar você vir conosco.
- Fala assim porque não conhece meu pai.
- Não conheço seu pai, mas conheço meu marido e sei do que ele é capaz.
- O doutor não está nem se importando. Quer me entregar no juizado de menor.
- Então vamos fazer o seguinte. Você passa esta noite aqui. Se até amanhã estiver pensando do mesmo jeito, eu mesma abro o portão para você sair. Combinado assim?
Dayelle, não tinha alternativa. Lembrou do dia que chegou e ficou perambulando pela cidade sem rumo, com fome, com sede e decidiu aceitar a oferta da doutora. Afinal, ela não era tão corajosa assim de ir para a rua e enfrentar a noite sozinha. E se aparecesse algum marginal? Um estuprador? Será que ia surgir outro super-Pedro para salvá-la? Melhor seria não confiar nesta possibilidade.
De armas depostas, vencida no combate, Dayelle voltou para o quarto.
- Posso servi-la, doutora? – perguntou Rita.
- Não. Obrigada. Lanchei antes de sair do hospital e estou sem fome.
- Come ao menos uma saladinha, querida. – pediu Rafael – Vai me deixar comer sozinho?
- Você já está terminando.
- Quem disse? Comecei agora.
- Está certo. Sirva-me uma salada, Rita.
Rita a serviu de salada de alface picadinha, acompanhada por outra de tomate e cenoura cozida.
- E a menina? – quis saber Rafael.
- No quarto.
- Bem tinhosa, a garotinha, hem?
- Qualquer mulher vira uma fera quando seu filho está em jogo.
- É na verdade tenho pena dela. Se a história for do jeito que ela contou, acho bem difícil encontrar essa criança.
- Será que sua mãe falou a verdade? Que não conhece a pessoa pra quem deu o menino?
- É bem provável. O avô se viu numa situação difícil de ter que sustentar mais uma boca e a avó, coitada, o que ia fazer?
- Ah! Querido, mas é muita maldade. Ela nem viu o filho.
- Na verdade eu acho que a avó agiu num momento de desespero. Ela não esperava que a filha fosse sobreviver. Dayelle não disse que ficou vários dias alienada e que alguns a davam por morta?
- O que pretende fazer amanhã?
- Levá-la a casa dos pais e conversar com eles.
- E se ela realmente não quiser ir?
- Não sei. De todo jeito, tenho que entrar em contato com a família dela. Hiiii! Tem um problema.
- Qual? – quis saber Késsia.
- As crianças. Chegam amanhã.
- Ainda bem estou morrendo de saudades deles.
- Eu também estou. Mas vamos sair daqui amanhã bem cedo. Cinco horas tiramos a Dayelle da cama. Vai ser até bom. O pensamento dela vai está meio lento e não vai conseguir ser tão malcriada.
Riram da observação e Rafael continuou:
- São três horas de viagem. Com uma hora agente resolve tudo com seus pais e mais três horas para voltar. As crianças vão chegar à tardinha. Estaremos aqui para recebê-las.
Rita estava ali ouvia toda a conversa sem opinar.
- Rita, não diga nada a ela do que ouviu aqui, certo? – Advertiu Rafael.
- Pode deixar doutor, será como o senhor deseja.
Terminado o jantar Rafael e Rita resolveram dar um passeio antes de dormir, pois a noite estava muito quente.
Rita recolheu a mesa, deixou mais ou menos arrumado para o dia seguinte. Ia ter que levantar mais cedo. Naquela noite não conversou com Pedro e Diogo como de costume. Foi direto para o quarto, onde Dayelle já estava deitada. Conversou um pouco com ela para convencê-la de levar os patrões para conversarem com seus pais. Sugeriu que ela confiasse neles, que ela não ia se arrepender. Depois tomou seu banho e se deitou também.
Rafael tinha várias qualidades; uma que merecia destaque era a de não deixar para depois o que podia fazer já. E a situação da menina Dayelle realmente lhe preocupava. Parecia uma boa menina, mas que a vida judiara dela. Rafael sentiu desejo de fazer algo por ela. Iria à casa de seus pais e resolveria toda aquela situação. Poderia não ser bem recebido, mas mesmo assim tinha que fazê-lo. Era o certo, uma vez que Dayelle era menor e fugira de casa. Outra qualidade de Rafael era de gostar das coisas certas. Não apenas por ser religioso, mas por fazer parte de seu caráter.
Na manhã bem cedo os Zandelly se levantaram e se aprontaram para sair.
Rita que levantara mais cedo, já prepara o café e foi chamar Dayelle.
Dayelle acordou, levantou-se ainda meio sonolenta e foi para o chuveiro. Tomou uma boa chuveirada e conseguiu despertar-se totalmente. Lembrou-se da noite anterior e o motivo pelo qual estava levantando tão cedo. Mas... Que remédio? Se um dia teria enfrentar seus pais, melhor seria enfrentá-los já. E se os Zandelly estavam dispostos a ajudá-la, tanto melhor. Não teria de enfrentá-los sozinha.
Vestiu sua calça jeans surrada com uma blusinha de malha preta que ganhara de Mirian e calçou a sandália preta; presente de Rita. Escovou os cabelos que pareciam mais um véu de seda, totalmente negros e brilhantes. Pegou seu livro de Vinícius de Morais. Não queria correr o risco de ficar sem ele caso seus pais a impedissem de voltar. Era algo de muito valor para ela. Nele ela descobriu as mais lindas frases de amor. E desde que Marcos foi embora, Vinicius de Morais era seu companheiro inseparável. Parecia lhe que o que estava escrito era unicamente para ela. Desde que Marcos partira, o ‘‘soneto de separação” já estava até gasto de tanto que ela lia. Tudo aconteceu tão de repente.
“De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente”.
As palavras do poetas se tornaram bálsamo para as feridas da menina que desejava apenas ser feliz com seu grande amor.
Saiu do quarto, atravessou o pequeno jardim e a área de serviço e foi para a cozinha onde estavam já Rafael, Késsia e Rita que os servia.
- Toma seu café, Dayelle – ordenou Rafael – Temos muito chão pela frente.
- Obrigada! Estou sem fome.
- Não é bom sair sem nada no estômago - observou Késsia.
- Não se preocupe comigo, doutora. É que não tenho hábito de comer nada assim tão cedo.
- Ao menos toma um copo de suco – foi falando Rafael e enchendo o copo, oferecendo a menina, que ficou sem jeito de recusar.
Após o café foram os três para o carro, iniciar a viajem programada. Rafael fazendo as recomendações de sempre aos seguranças e Késsia lembrando a Rita da chegada das crianças e assim, partiram para Vila de Rio Claro.

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